Robert Skidelsky
Robert Skidelsky 26 de agosto de 2018 às 14:00

Proteccionismo para os liberais

Os liberais devem exercer o seu direito de atacar a política de Trump. Mas devem abster-se de criticar o proteccionismo de Trump até que tenham algo melhor para oferecer.

A repulsa liberal em relação à política mentirosa e grosseira do presidente norte-americano Donald Trump transformou-se numa defesa rígida da globalização regida pelo mercado. Para os liberais, o livre comércio de bens e serviços e a livre circulação de capital e trabalho estão integralmente ligados à política liberal. O proteccionismo da "América Primeiro" de Trump é inseparável da sua política doentia.

 

Mas este é um equívoco perigoso. Na verdade, a hostilidade inflexível em relação ao proteccionismo comercial pode destruir a política liberal. Afinal, a ascensão da "democracia iliberal" no Ocidente é o resultado directo das perdas sofridas pelos trabalhadores ocidentais (absoluta e relativamente) como consequência da busca incansável da globalização.

 

A opinião liberal sobre essas questões é baseada em duas crenças largamente difundidas: que o livre comércio é bom para todos os parceiros (pelo que os países que o adoptam superam aqueles que restringem as importações e limitam o contacto com o resto do mundo) e que a liberdade de comercializar bens e exportar capital faz parte da constituição da liberdade. Os liberais costumam ignorar a falta de firmeza das evidências históricas e intelectuais que sustentam a primeira crença e os danos à legitimidade política dos governos que o seu compromisso com a segunda implica.

 

Os países sempre negociaram uns com os outros, porque os recursos naturais não estão distribuídos da mesma forma por todo o mundo. "Seria uma lei razoável proibir a importação de todos os vinhos estrangeiros, só para encorajar a produção de clarete e borgonha na Escócia?", questionou Adam Smith. Historicamente, a vantagem absoluta - um país que importa o que não pode produzir, ou o que só pode produzir a um custo excessivo - sempre foi o principal motivo para o comércio.

 

Mas o argumento científico para o livre comércio consta da doutrina muito mais subtil e contra-intuitiva de David Ricardo sobre a vantagem comparativa. Países sem depósitos de carvão obviamente não podem produzir carvão. Mas supondo que é possível alguma produção de um bem naturalmente desfavorecido (como o vinho na Escócia), Ricardo demonstrou que o bem-estar total aumenta se os países com desvantagens absolutas se especializarem na produção de bens em relação aos quais são os menos desfavorecidos.

 

A teoria da vantagem comparativa ampliou em grande medida o alcance potencial do comércio internacional benéfico. Mas também aumentou a probabilidade de a produção doméstica menos eficiente ser destruída pelas importações. Essa perda para a produção de um país foi desvalorizada devido à suposição de que o livre comércio alocaria os recursos de forma mais eficiente e aumentaria a produtividade e, portanto, a taxa de crescimento "no longo prazo".

 

Mas a história não fica por aqui. Ricardo também acreditava que a terra, o capital e o trabalho - o que os economistas chamam de "factores de produção" - eram intrínsecos a um país e não podiam ser movimentados pelo mundo como commodities reais. "A experiência... mostra", escreveu Ricardo, "que a insegurança imaginada ou real do capital, quando não sob o controlo imediato do seu dono, juntamente com a resistência natural que todo o homem tem em deixar o seu país de origem e as suas conexões, e confiar, com todos os seus hábitos fixos, num governo estranho e em novas leis, contém a emigração de capital. Esses sentimentos, que eu deveria lamentar ver enfraquecidos, induzem a maioria dos homens de propriedade a ficar satisfeitos com uma baixa taxa de lucros no seu próprio país, em vez de procurar um emprego mais vantajoso para a sua riqueza em nações estrangeiras".

 

Esta barreira prudencial à exportação de capital diminuiu quando surgiram condições seguras em mais partes do mundo. No nosso tempo, a emigração de capital levou à emigração de empregos, já que a transferência de tecnologia tornou possível a realocação da produção doméstica em locais estrangeiros - aumentando assim o potencial de perda de empregos.

 

O economista Thomas Palley vê a realocação da produção no exterior como a característica distintiva da actual fase da globalização. Chama-lhe "economia barco". As fábricas flutuam entre os países para aproveitar os custos mais baixos. Uma infra-estrutura legal e política foi construída para apoiar a produção offshore que é então importada para o país exportador de capital. Palley vê correctamente o offshoring como uma política deliberada das corporações multinacionais para enfraquecer o trabalho doméstico e aumentar os lucros.

 

A capacidade das empresas de alocar empregos globalmente muda a natureza da discussão sobre os "ganhos do comércio". Na verdade, não há mais "ganhos" garantidos, mesmo a longo prazo, para os países que exportam tecnologia e empregos.

 

No final da sua vida, Paul Samuelson, o decano dos economistas americanos e co-autor do famoso teorema do comércio de Stolper-Samuelson, admitiu que se países como a China combinarem tecnologia ocidental com custos do trabalho mais baixos, o comércio com esses mesmos países reduzirá os salários no ocidente. É verdade que os cidadãos do ocidente terão produtos mais baratos, mas a possibilidade de comprar mantimentos 20% mais baratos no Wal-Mart não compensa necessariamente as perdas salariais. Não há nenhum "pote de ouro" garantido no final do arco-íris do livre comércio. Samuelson chegou a questionar-se se não vale a pena tolerar "um pouco de ineficiência" para proteger coisas "que valem a pena".

 

Em 2016, a The Economist admitiu que os "custos e benefícios de curto prazo" da globalização são "mais finamente balanceados do que os manuais assumem". Entre 1991 e 2013, o peso da China nas exportações globais de bens manufacturados aumentou de 2,3% para 18,8%. Algumas categorias da produção manufactureira americana foram eliminadas. Os Estados Unidos, afirmaram os autores, ganhariam "eventualmente". Mas os ganhos poderiam demorar "décadas" e não seriam partilhados de forma equitativa.

 

Mesmo os economistas que admitem as perdas decorrentes da globalização rejeitam o proteccionismo como resposta. Mas qual é a sua alternativa? Os remédios preferidos são, de alguma forma, desacelerar a globalização, dando tempo aos trabalhadores para se requalificarem ou para mudarem para actividades mais produtivas. Mas isto não serve de consolo para aqueles que estão presos nas velhas zonas industriais ou foram deslocados para empregos de baixa produtividade e mal pagos.

 

Os liberais devem exercer o seu direito de atacar a política de Trump. Mas devem abster-se de criticar o proteccionismo de Trump até que tenham algo melhor para oferecer.

 

Robert Skidelsky, membro da Câmara dos Lordes britânica, é professor emérito de Economia Política na Universidade de Warwick.

 

Copyright: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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