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O Facebook debaixo de fogo

O debate sobre o papel das redes sociais na sociedade, em particular o da criada por Mark Zuckerberg, ganhou nova acuidade. O último caso prende-se com a utilização de dados pessoais de 50 milhões de utilizadores do Facebook pela Cambridge Analytica, uma empresa que terá sido instrumental na eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA.

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A Cambridge Analytica, detida por Robert Mercer, um milionário simpatizante da extrema-direita americana, especializou­-se no uso de informação das redes sociais para traçar perfis psicológicos dos utilizadores e, em função dessa caracterização, bombardeá-los com mensagens dirigidas que serviam os objectivos dos clientes. Entre estes estiveram a campanha pelo Brexit e a candidatura presidencial de Donald Trump.

Uma investigação do britânico Channel 4 e do Observer revelou ainda que a mesma empresa oferece, na sua panóplia de serviços, a divulgação de notícias falsas e a contratação de ex-espiões para denegrir a imagem de rivais em campanhas políticas. "Não tem necessariamente de ser verdade, desde que as pessoas acreditem", ouviram, do CEO da Cambridge Analytica, os jornalistas.

O Facebook ter sido um mero instrumento não o iliba. A Cambridge Analytica diz que teve acesso aos dados, mas que não os utilizou. Um antigo colaborador denuncia o contrário. Se ainda tem ou não os dados, é pouco relevante. O facto de os ter tido já suscita graves questões de privacidade.

Há depois a questão da utilização da rede social como arma de manipulação em larga escala, sem que esta tenha capacidade de o travar. Na semana passada, a missão independente das Nações Unidas que investiga possíveis actos de genocídio contra os rohingya em Myanmar assinalava o papel do Facebook na disseminação do ódio.
 

O problema não está na tecnologia, mas no uso que dela é feito. É aí que entra a ética. Deve o Facebook impô-la? A verdade é que já a impõe. Faz sentido a mesma rede social que censura a imagem da "Napalm girl" ou de uma mamografia permita a sua utilização como instrumento de divulgação de campanhas negras e manipulação do eleitorado? Onde se traça a linha vermelha? Queremos mesmo traçar uma linha que cerceie um espaço de liberdade? Convém não esquecer que o Facebook e outras redes sociais tiveram já um papel fundamental em movimentos pró-democráticos.

Quando uma mulher é atropelada mortalmente por um carro autónomo da Uber em testes, isso obriga a parar e a reflectir. O mesmo aplica-se quando as redes sociais fazem perigar o equilíbrio das sociedades. E exige também um olhar cada vez mais crítico dos utilizadores sobre aquilo que lhes cai no "feed", não raras vezes um espelho distorcido da realidade. 
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