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1917: Todo o poder aos sovietes

Em Outubro de 1917, a revolução russa não mudava apenas um país. Espalhava uma ideologia pelo mundo. Poucos anos depois da II Guerra Mundial, o comunismo ocupava o poder num terço da superfície terrestre. Foi há cem anos.

Fernando Sobral fsobral@negocios.pt 24 de Fevereiro de 2017 às 11:10
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A Revolução Russa de Outubro de 1917 não mudou apenas um país. Definiu o mundo no século XX. Poderia ter alterado o destino da I Guerra Mundial, mostrou uma resistência da liderança bolchevique que os poderes ocidentais não estavam à espera e espalhou uma ideologia, o comunismo, que poucos anos depois da II Guerra Mundial ocupava o poder num terço da superfície terrestre. Em meados do século XX, era uma fortaleza nuclear que dividia com os Estados Unidos a supremacia global. O seu poder corroeu-se internamente e, quando Mikhail Gorbachev se tornou secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, em 1985, tentando reformar o que já era irreformável, tornou-se evidente que uma era terminara.

Mas, mesmo nessa altura, o poder russo ainda acreditava que Lenine e a revolução tinham sido forças benignas no século XX. Afinal, a simbologia da revolução russa tornara-se um sonho global que só a pouco e pouco foi mostrando os seus escondidos pesadelos. Ainda assim, a sua força de atracção, como pretensa alternativa ao modelo liberal e capitalista, não se esbateu facilmente. Até muito recentemente, o estalinismo tornara-se a desculpa aceitável, como uma "distorção" dos "ideais puros" de Outubro e de Lenine. Hoje percebe-se que houve, desde o início, um caminho paralelo entre o sonho de mudança e a lógica totalitária que muitos dos dirigentes bolcheviques russos tinham. A começar por Lenine que, em Janeiro de 1917, dizia que talvez a revolução não se realizasse enquanto fosse vivo. As "teses de Abril" iriam transformar-se em realidade, como verdadeira marcha forçada: contra a guerra, nenhum apoio ao Governo Provisório, todo o poder aos sovietes, necessidade de os bolcheviques (ainda minoritários) "educar" as massas, a nacionalização das terras e dos bancos. Lenine, o teórico, acreditava que os meios justificavam os fins. A Rússia apanharia o comboio para uma ditadura em nome do proletariado e dos oprimidos.

Outubro a preto e branco

O mito da revolução está feito a preto e branco pelo realizador Sergei Eisenstein em "Outubro": não falta nada, das bandeiras, aos canhões do cruzeiro "Aurora", à conquista do Palácio de Inverno, ao fim do czarismo. O cinema, antes de ser uma arte, foi apenas um espectáculo, e aqui estava ao serviço de uma ideologia hegemónica. Outubro tornava-se um mito. Lenine era um adepto da eficiência e da produção em massa que Henry Ford e o taylorismo tinham trazido para a economia. Aplicou esses princípios à política e à cultura dominante.

Petrogrado (como era conhecida São Petersburgo) foi o palco de um teatro onde as massas populares, os soldados, os burgueses e os revolucionários se cruzaram e decidiram um capítulo da História. Tudo começou em Fevereiro de 1917, no meio da greve das fábricas têxteis de Vyborg, quando milhares de estudantes e populares ocuparam as ruas. Não era a única razão: a Rússia sangrava com as perdas humanas na frente de uma guerra mundial onde era carne para canhão. Enfrentava o racionamento, o aumento de preços e o frio.

Num país corrupto e desorganizado, o czar Nicolau II já presenciara uma primeira insurreição em 1905, depois da grande fome de 1891. A guerra contra as potências do centro da Europa, a começar pela Alemanha, era vista pelo czar como uma forma de manter o império e solidificar o seu poder. Erro trágico. Ao tornar-se chefe das forças armadas, caiu sobre si o odioso sentimento das sucessivas derrotas de um exército pouco profissionalizado e mal equipado. Além disso, o czar era visto como estando conluiado com o inimigo alemão, já que a sua mulher, Alexandra, era alemã e ele próprio era primo do Kaiser alemão. A morte de Rasputine, o mestre das sombras na corte russa, em 1916, já desenhava o desconforto vigente. Em Fevereiro de 1917, o poder implode: os soldados de Petrogrado revoltam-se e deixam de obedecer à cadeia de comando. Os bolchevistas, que viriam a tomar conta do poder em Outubro, não tinham nada controlado: Lenine estava em Zurique, a viver na Suíça, estranhamente a poucos metros do "cabaret" onde nascia o movimento Dada, e, após negociações com os alemães (que o viam como um aliado para retirar a Rússia da guerra e assim poderem deslocar as suas tropas para ocidente), conseguiu regressar a Petrogrado. Leon Troststy estava em Nova Iorque.


Mas, em Fevereiro, o império perde o controlo da sua capital. E os líderes da esquerda na Duma (o Parlamento), contra a vontade do czar, criam um comité temporário para controlar a situação. No início de Março, os generais convencem o czar a abdicar. O que seria a única forma de restabelecer a ordem e de evitar uma derrota militar. O Governo provisório é dominado por mencheviques (marxistas que julgam necessária uma transição democrática) e socialistas-revolucionários. Lenine chega no meio de uma situação militar e social irrespirável. Com o caos nas ruas, vem com ideias fixas sobre a revolução. Radicalizar é a palavra de ordem face ao avanço das tropas do general Kornilov, um cossaco siberiano. O líder do Governo Provisório, Kerensky, receoso, manda armar os sovietes. E os bolcheviques, até aí minoritários, vêem o seu prestígio aumentar. E têm armas. Depois de ter fugido para a Finlândia, Lenine regressa em finais de Outubro. De 24 para 25 de Outubro, os guardas vermelhos e as tropas regulares tomam conta dos locais fulcrais de Petrogrado e, na manhã seguinte, ocupam o Palácio de Inverno. O poder cai nas suas mãos.

A importância militar na revolução foi muitas vezes esquecida: entre 1914 e Janeiro de 1917, mais de 14 milhões de russos (dos quais 85% camponeses) foram mobilizados para a guerra. O sacrifício de guerra era uma ferida latente na sociedade e a posição contra o conflito de Lenine e dos bolcheviques ajudou ao alargar da sua base de apoio. A atitude prepotente dos oficiais czaristas, as deserções e a ideia entre os soldados de Petrogrado de que só os bolcheviques conseguiram melhorar a sua situação, fizeram o resto. A paz humilhante de Brest-Litovsk, em Março de 1918, em que a Rússia perdia 800 mil quilómetros quadrados de território, foi a necessária para que Lenine conseguisse mais tarde manter-se no poder. Um passo atrás, para se dar dois à frente.

A História ensina-nos que em períodos de mudança o pêndulo oscila de um extremo a outro, mas nunca fica no meio. Sucedeu isso com a Revolução Francesa e voltou a repetir-se na Rússia de 1917. A equidistância de Alexander Kerensky colocou-o numa terra de ninguém nos meses anteriores à conquista do poder pelos bolcheviques. Kerensky era a figura mais importante da oposição ao czar. Defendia um liberalismo de esquerda e queria transformar a Rússia numa república democrática. Desempenhou um papel fulcral na revolução de Fevereiro e fez parte do Governo Provisório. Em Julho, foi nomeado primeiro-ministro e converteu-se no homem mais poderoso da Rússia. Mas Kerensky cometeu o erro de pactuar com os mencheviques e propiciar umas reformas que lhe escaparam das mãos num tempo em que a Rússia estava em guerra.

Lenine e os bolcheviques viram claramente as debilidades de Kerensky, aliado circunstancial nos meses anterior à tomada do Palácio de Inverno, e ficaram com o poder. E Kerensky foi para o exílio. O poder mudava. Outubro representou a passagem de um governo que não tinha Estado para um Estado em formação que não tinha governo. E o partido bolchevique torna-se esse governo. A pouco e pouco, passa a ocupar todos os centros de poder, a começar pelos sovietes. A partir daí, os opositores são cercados, perseguidos e interditos, como os socialistas-revolucionários ou os mencheviques.

Quando, em Janeiro de 1918, uma Constituinte é eleita, a maioria é de deputados socialistas-revolucionários. Não dura muito: é derrubada por acção militar. No resto do país, começa uma guerra civil entre vermelhos bolcheviques e brancos czaristas. As potências ocidentais tentam influir no futuro da Rússia, como se viu nas acções conduzidas pela espionagem britânica. Mas Lenine ganha. Não tinha dúvidas ou hesitações. A violência sobre os seus inimigos torna-se a sua política: na teoria, ele já a defendia: na prática, aplicou-a.

As ramificações bolcheviques

A revolução teve um efeito multiplicador em muitos países, incluindo Portugal, que vivia a confusão da I República. José Carlos Rates, no seu livro "A Rússia dos Sovietes", retrata aquilo que viu em 1924, mas é também um livro de definição ideológica. Rates precisava, na altura, de dotar o PCP de um corpo teórico. O PCP fora fundado em 1921 e, em 1923, no I Congresso do partido, é eleito secretário-geral do partido, apoiado pelo enviado da III Internacional a Portugal, Jules Humbert Droz, contra José de Sousa e as Juventudes Comunistas.

Rates acabaria como jornalista do Diário da Manhã, jornal salazarista e confinado a uma ligação à União Nacional. Seria apagado da história do PCP, mesmo tendo sido o seu primeiro secretário-geral. O livro é publicado em 1925, numa altura ainda de sonho e viria a ser reeditado mais tarde, já em 1976, pela editora Seara Nova. Algumas partes do livro são muito interessantes porque retratam aquilo que era ainda um período de paixão pela revolução russa, que era um holofote que poderia iluminar revoluções em todo o mundo: "O furacão revolucionário, varrendo a Rússia de um extremo a outro, como a charrua revolve a terra inculta, não conseguiu extirpar todos os males sociais. É que os hábitos e a mentalidade de um povo não se modificam senão pelo labor e esforço de muitos nós." Ele escrevia isto depois de ter pago, no dia 31 de Julho de 1924, sete dólares e meio ao taxista russo que o levou da estação de comboios à sede da Internacional Comunista, onde percebe depois que tinha sido enganado.
Rates faz uma análise das mudanças ideológicas, políticas e económicas da Rússia soviética. E depois acrescenta: "A minha estada na Rússia influiu de maneira decisiva para varrer de vez do meu espírito um certo número de ilusões que conservava ainda. Assim, eu alimentava a esperança de atrair ao comunismo um certo número de intelectuais que a política ainda não tivesse queimado. Vejo hoje nitidamente que o comunismo nada tem a ganhar com a conquista dos intelectuais que não estejam dispostos a proletarizar-se nos hábitos e na ideologia". E acrescenta: "A Rússia, conduzida pela revolução proletária, é um país que está no início da curva ascendente de uma civilização nova. Cercaram-na de baionetas e cuspiram-na de calúnias e de insultos. Trabalho inútil. Ela romperá inexoravelmente o círculo de ferro que a estreita e imporá a sua civilização." A exaltação de Rates não duraria muito.

A perseguição dos intelectuais

O potencial criativo nas artes, entre a revolução de Fevereiro de 1917 e o ponto de viragem da guerra civil em 1919, foi empolgante. Disso dá-nos conta o excelente livro "1917 Stories and poems from the Russian Revolution", coordenado por Boris Dralyuk e editado já este ano. A partir daí, a dureza do novo regime manifesta-se com a devastação da elite cultural russa, como a do grupo dos acmeístas, dos mais radicais na formulação da poesia. O aventureiro poeta-guerreiro Nikolay Gumilyov é preso e executado em 1921. Quem não está ao serviço da "revolução" é colocado na margem e perseguido. Exemplo é o trágico fim de Osip Mandelstam, que morreria em 1938 num campo de "reeducação" perto de Vladivostok.


Outra grande poeta, Anna Akhmatova, sobreviveria à perseguição de Estaline, mas com um preço elevadíssimo. Um grupo de intelectuais que achava que a Rússia tinha a missão especial de reconciliar os pólos opostos do Ocidente e do Oriente, a natureza e a tecnologia, as forças das pessoas comuns e dos intelectuais, é varrida do mapa sem dó nem piedade. Alexander Blok, a figura cimeira do simbolismo russo e mestre dominante da poesia russa da primeira década do século XX, esvai-se depois de escrever o grande poema "Os Doze", ainda eivado de sonhos sobre a revolução.

Apesar dos esforços de Gorky, só consegue autorização para tratar a sua doença fora do país depois de já ter morrido.

A Rússia não estava alheia às grandes mutações no mundo da cultura e das artes que faziam cócegas às ideias estabelecidas. Nos anos anteriores à guerra, Moscovo era um grande centro artístico, com vários "marchands" de arte a comprarem obras de Cézanne, Matisse e Picasso. O cubismo e mesmo o futurismo serviam de influência para a arte revolucionária. Kazimir Malévich, El Lissitzky ou Alexander Rodchenko testavam as cores e as linhas geométricas. E, claro, Maiakovski. Os artistas de vanguarda acabariam por ser cilindrados pelos conceitos de arte revolucionária ao serviço do "povo" (ou, melhor, da ideologia estatal). E, a partir de 1926, todo o sonho sufocaria. Maiakovski daria um tiro na cabeça em 1930. O mito continuaria a fascinar meio mundo. Mas, no interior da Rússia, há muito que ele era apenas um filme de propaganda da ideologia oficial. Onde os perdedores e os sobreviventes escondidos já nem o papel de actores secundários faziam. Os guerreiros cansavam-se ou suicidavam-se. E desapareciam os verdadeiros heróis.


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