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Está a trabalhar mais três horas por dia em casa? Não é o único

Um mês e meio depois, as pessoas estão sobrecarregadas, stressadas e ansiosas para voltar ao escritório.

Bloomberg 26 de Abril de 2020 às 12:00
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Um executivo do JPMorgan Chase recebe mensagens à noite e nos fins de semana sem um pedido de desculpas dos colegas, incluindo uma notavelmente exigente no domingo de Páscoa. Um web designer cujo quarto serve de escritório tem de acionar um alarme para se lembrar de almoçar durante a horário de trabalho sem parar. Na Intel, uma vice-presidente com quatro filhos fica ligada 13 horas por dia enquanto tenta conciliar a tarefa de cuidar das crianças e do trabalho.

Após seis semanas de trabalho em casa sem um fim à vista, quaisquer que fossem as fronteiras que restavam entre trabalho e vida pessoal desapareceram quase inteiramente.


Com muitas pessoas a morar a poucos passos dos escritórios, a cultura dos Estados Unidos de trabalhar a qualquer hora chegou a novos patamares. A jornada de trabalho das 9h às 17h, ou qualquer coisa parecida, parece uma relíquia de outra era. Formalidades como pedir desculpa por ligar ou enviar e-mails em horários inadequados são coisas do passado. Funcionários esgotados sentem que têm menos tempo livre do que quando perdiam horas nos transportes para ir ao trabalho.


"Para ser bem sincera, estou a usar exatamente a mesma roupa da segunda-feira", disse Rachel Mushahwar, vice-presidente e diretora-geral de vendas e marketing para os EUA da Intel, em entrevista na quinta-feira passada. "Acho que tomei banho três vezes."

 

Alguns especialistas esperavam que a grande migração para o trabalho em casa durante a pandemia levaria a uma nova era de acordos de trabalho flexível. Em 2017, apenas 3% dos profissionais nos EUA disseram que trabalhavam "principalmente" em casa. Milhões de pessoas ficaram em casa no que se pensava ser um hiato temporário. Muitos fizeram planos para preencher o tempo que gastavam da deslocação para o emprego para ter novos hobbies, como aprender um idioma, cozer pão ou conseguir o melhor estado físico das suas vidas. Parecia o começo de uma revolução do teletrabalho.

Um mês e meio depois, as pessoas estão sobrecarregadas, stressadas e ansiosas para voltar ao escritório. Nos EUA, pessoas que trabalham em casa estão ligadas três horas a mais por dia do que antes dos confinamentos, de acordo com dados da NordVPN, que rastreiam quando os utilizadores se conectam e desconectam do trabalho. Entre todos os países que a NordVPN analisa, os trabalhadores dos EUA eram os que se ligavam por mais tempo. Em França, Espanha e Reino Unido, o horário de trabalho aumentou duas horas, segundo dados da NordVPN. Na Itália não houve mudanças.

Os horários da jornada de trabalho também mudaram. Sem o tempo de deslocação, as pessoas acordam mais tarde, segundo a NordVPN, mas o horário de pico de e-mails deslocou-se para as 9h da manhã, de acordo com dados da Superhuman. Os funcionários também voltam logar-se durante a noite. A Surfshark, outro provedor de VPN, observou picos de utilização da meia-noite às 3h da madrugada que não estavam presentes antes do surto da covid-19.

Huda Idrees, diretora-presidente da Dot Health, uma startup de tecnologia com sede em Toronto, confirma que os seus 15 funcionários estão a trabalhar, em média, 12 horas por dia, acima das 9 horas pré-pandemia. "Estamos nos nossos computadores muito cedo, porque não há tempo de deslocação", disse. "E, como ninguém sai à noite, também estamos sempre lá."


Um grande problema é que não há escapatória. Sem muito que fazer e sem nenhum lugar para ir, as pessoas sentem que não têm uma desculpa legítima para não estarem disponíveis. Um funcionário do JPMorgan interrompeu o seu banho matinal para participar numa reunião improvisada depois de receber uma mensagem de um colega no Apple Watch. Quando se secou e voltou a conectar-se, estava cinco minutos atrasado.


Depois, há o facto de que as pessoas transformaram os seus espaços em escritórios improvisados, tornando quase impossível desligar-se. Ter um quarto extra ajuda, mas não muito, disse John Foster, que está em casa em Tuscumbia, Alabama, desde meados de março, cuidando da conformidade financeira para uma fábrica. O seu espaço de trabalho fica ao lado da sala de estar.

"Andamos 20 vezes por dia", disse. "Toda as vezes que passo por lá, não escapo do trabalho." Neste ponto, até sente falta do tempo em que se deslocava ao trabalho. "Geralmente, tinha aquela pausa para voltar para casa e preparar-me para o dia", disse.


Outros dizem que sentem pressão dos patrões para provar que estão a trabalhar, principalmente porque a economia sofre um impacto e a perspetiva de demissões é real. Na Constellation Software, em Toronto, mais de 100 funcionários receberam um e-mail de um superior que dizia: "Não se distraia porque está sozinho. É fácil adquirir maus hábitos, a atração da Internet. Basta pensar, faria isso no escritório? Se for um não, não faça", dizia o e-mail visto pela Bloomberg.

"Sabem que vamos fazer uma monitorização apertada", escreveu o mesmo gestor numa mensagem anterior. Um representante da Constellation Software não respondeu a mensagens de telefone e e-mail a pedir comentários.

 

Produtividade em alta

Na realidade, apesar dos estereótipos de que o teletrabalho leva a uma despreocupação, os dados preliminares sugerem que a produtividade está a subir, pelo menos nalgumas empresas. "Temos assistido, de forma surpreendente, a um aumento da produtividade de alguns dos nossos trabalhadores, que estão confinados e focados em casa", diz o CFO do Bank of New York Mellon, Mike Santomassimo.


No JPMorgan, onde cerca de 70% dos 250 mil trabalhadores estão a trabalhar remotamente, a produtividade aumentou em diversas funções, já que muitos trabalhadores gastam menos tempo em reuniões e sessões de formação.


Um estudo interno na Publicis Sapient, uma consultora de tecnologias de informação que acompanhou o trabalho de 410 empregados em 40 projetos tecnológicos para um grande banco de investimento de Nova Iorque, também detetou uma forte subida da produtividade. Entre 16 de março e 10 de abril, as tarefas foram cumpridas ao mesmo ritmo ou de forma mais célere do que antes da crise.


"Quanto estamos em modo virtual distraímo-nos menos – ninguém desaparece para tomar um café e falar com colegas, " diz Dave Donovan, que lidera a unidade de serviços financeiros da Publicis Sapient nas Américas. "Os clientes também estão mais disponíveis". Tendo em conta os resultados iniciais, Donovam pensa que o trabalho à distância está para ficar. "Assim que o génio sai da garrafa já não volta lá para dentro".


Nem sempre os ganhos vêm sem custos. No início de abril, 45% dos trabalhadores reportaram que estavam em "burnout", de acordo com um estudo da Eagle Hill Consulting a 1.001 pessoas nos EUA. Cerca de metade atribuiu o problema a um aumento do trabalho, o desafio de conjugar a vida profissional e pessoal, e a falta de comunicação e apoio por parte do empregador. Manter a moral dos trabalhadores é uma tarefa difícil, dizem dois terços dos profissionais de recursos humanos inquiridos pela Society for Human Resource Management no início deste mês.

 

Os pais com filhos em casa são particularmente afetados, pois têm de se dividir entre o trabalho e cuidar das crianças, que agora têm aulas virtuais. Em cerca de dois terços dos casais casados com filhos nos EUA, ambos os pais trabalham, o que não deixa ninguém disponível para cuidar das crianças quando o outro está a trabalhar.


Para Mushahwar, a gestora da Intel, não há vencedores. Sente-se culpada se negligencia o trabalho e culpada se não dá atenção aos filhos. "Queimei o bacon porque estava em ‘conference call’. Aconteceu logo de manhã", diz Mushahwar, que tem quatro filhos, com idades entre 8 e 14 anos, além dum emprego a tempo inteiro.

Um web designer de 31 anos, que trabalha numa empresa de software de média dimensão, diz que está a começar a perder energia a trabalhar 12 horas por dia no seu pequeno quarto para conseguir cumprir os pedidos dos clientes e chefes, que esperam respostas imediatas a e-mails e telefonemas, mesmo aos fins de semana.


O apartamento onde vive não tem um escritório e os seus colegas de casa, uma mulher a sua filha pequena, veem televisão e jogam na sala. Não consegue desligar-se do trabalho, mas sente pressão para trabalhar mais do que o normal. Alguns dos seus colegas estão em "lay off".


Reconhecendo que o aumento da produtividade pode ser de curta duração se os trabalhadores entrarem em burnout, algumas empresas estão já a tomar medidas. O Goldman Sachs deu uma licença familiar de dez dias aos trabalhadores e a Microsoft está a dar mais 12 semanas de licença parental. Na Starbucks os empregados têm 20 sessões de terapia grátis. A Salesforce disponibiliza sessões virtuais de meditação.


Mas não há muito que as empresas possam fazer com as escolas, creches e escritórios fechados por um período que agora parece infinito. Mesmo o plano otimista de Donald Trump para abrir a economia em breve prevê que as escolas continuem fechadas durante semanas.


Nesta altura, até as crianças estão a pensar quando vão regressar à normalidade. Na semana passada, o filho de oito anos de Mushahwar perguntou-lhe se isto ia ter um fim. "Sentei-me e não consegui dar-lhe uma resposta", disse a gestora da Intel.

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