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Centeno: "Não chegámos à crise pandémica sem o trabalho de casa feito"

O tecido empresarial português chegou à atual crise mais produtivo, menos endividado e mais capaz de investir do que na anterior crise financeira, defende o governador do Banco de Portugal.

Mário Centeno diz que a crise é temporária, mas terá alguns efeitos estruturais que devem ser tidos em conta na resposta a dar.
Duarte Roriz
Rafaela Burd Relvas rafaelarelvas@negocios.pt 20 de Novembro de 2020 às 10:16
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Os "tempos são desafiantes" e a crise gerada pela pandemia só poderá ser ultrapassada com a atuação concertada de autoridades nacionais e europeias, instituições financeiras e empresas. Mas, desta vez, e ao contrário do que aconteceu na crise da dívida soberana, Portugal enfrenta a nova crise com "o trabalho de casa feito", contando com um tecido empresarial mais produtivo, menos endividado e mais capaz de investir. A ideia foi defendida por Mário Centeno, governador do Banco de Portugal (BdP), durante a conferência Money Conference, organizada pelo Dinheiro Vivo e pela TSF.

No discurso de abertura da conferência que está a decorrer esta sexta-feira, 20 de novembro, e que é dedicada ao tema "A Banca no Pós Covid-19", Mário Centeno começou por lembrar as "deficiências" que afetaram o sistema bancário português na última crise financeira, que levou a que Portugal tivesse demorado "demasiado tempo a atuar" para enfrentar essa crise.

Hoje, diz, essas deficiências já não existem. "Temos um sistema financeiro resiliente e isso foi determinante para a rapidez das medidas de apoio à economia que foram aprovadas. Por estar mais sólido, o sistema bancário contribuiu para a mitigação do choque inicial da pandemia. Os bancos fizeram parte da solução, não foram parte do problema", afirmou o governador do BdP.

Mas, mais do que na resiliência dos bancos, Mário Centeno quis focar-se no cenário empresarial que existia em Portugal antes da pandemia. "Os cenários económicos que traçamos dependem sempre do ponto de partida. As sociedades não financeiras, que representam 1,3 milhões de entidades, tiveram uma transformação única e inédita" desde 2013 e até ao final de 2019, começou por apontar.

"No conjunto deste vastíssimo universo, o valor acrescentado bruto cresceu 43% neste período. O excedente de exploração cresceu mais de 50%. Este aumento de atividade foi conseguido com a conjugação de dois fatores bastante unusuais: o aumento massivo do investimento, com um crescimento de 113% da formação bruta de capital fixo, e uma redução do rácio da dívida sobre o ativo em mais de 53 pontos percentuais", detalhou.

Assim, argumenta o governador do BdP, a economia portuguesa chegou à atual crise depois de uma forte desalavancagem financeira, aumento do investimento e do emprego e com empresas mais eficientes. "É este o cenário para trabalharmos. Esta não é uma economia qualquer, não é uma economia que não mereça ser respeitada, pelo esforço enormíssimo de transformação que fez nos últimos seis anos. Não chegámos à crise pandémica sem o trabalho de casa feito", sublinhou.

Seja como for, ressalvou, são necessárias medidas para reforçar a capitalização das empresas, ao mesmo tempo que a utilização dos fundos públicos deverá ser feita de forma eficiente, de forma a "identificar empresas viáveis, que devem ser as recetoras destes apoios".

Ao mesmo tempo, frisa, "é necessário garantir a estabilidade do sistema bancário, com o previsível aumento das perdas do crédito". Quanto à banca, o governador do BdP reconhece ainda que o sistema "continua a enfrentar problemas de rentabilidade", ao mesmo tempo que tem de fazer face ao "desafio da digitalização".
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