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Governo antecipa “decréscimo substancial” do preço do hidrogénio

Numa sessão dedicada à indústria, o Ministério do Ambiente respondeu às dúvidas dos empresários sobre a aposta no hidrogénio verde. Os custos, os apoios e a falta de tecnologia madura são as principais preocupações.

Miguel Baltazar
Ana Sanlez anasanlez@negocios.pt 01 de Julho de 2020 às 19:39
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É uma "extraordinária oportunidade para Portugal" que não deve ser desenhada "nos gabinetes do Governo". Foi assim que o secretário de Estado da Energia, João Galamba, convidou, esta quarta-feira, mais de duas dezenas de empresas industriais para partilharem dúvidas e sugestões sobre a estratégia nacional para o hidrogénio, que está em consulta pública até à próxima semana.


Os custos que a transição energética pode acarretar para a indústria, que será a principal destinatária do hidrogénio verde, foram a preocupação mais referida pelos empresários, e que o Governo tentou afastar. "Somos consumidores importantes de gás natural, e eu gostava de saber se se estamos muito longe, ou não, da neutralidade do preço do hidrogénio em relação ao gás natural", questionou António Andrade Tavares, da Renova, que classificou o projeto como "globalmente muito positivo".


"A paridade com o gás natural será assegurada no curto prazo. Sendo este um movimento europeu e mundial, e não apenas nacional, e com a evolução das tecnologias, veremos no médio prazo um decréscimo substancial dos preços do hidrogénio", destacou o adjunto do secretário de Estado da Energia, Jerónimo Meira da Cunha. "O que se pretende é que isto não represente de todo um encargo para os consumidores", ressalvou.


João Galamba corroborou a posição, salientando que "houve um custo que ninguém referiu, que é o custo de não fazer nada, que deve ser referido em todas as avaliações". O secretário de Estado reconheceu que o "hidrogénio pode ser caro e pode haver incertezas tecnológicas", mas lembrou que as regras de Bruxelas relativas à descarbonização vão apertar. A Comissão Europeia tem um "compromisso firme com a descarbonização e vai multar severamente aqueles que não apostarem nela", destacou.

Hidrogénio terá leilões


Além dos custos, os industriais manifestaram ainda reservas quanto às oportunidades que o hidrogénio pode representar, ou não, para as empresas nacionais. "Esta é, sem dúvida, uma oportunidade única para criar valor, tecnologia e emprego. Mas temos de criar condições para que indústria nacional participe nos grandes projetos previstos, obrigando, por exemplo, os players internacionais a ter parcerias locais", lançou José Sousa, diretor-geral da Efacec.


Perante esta dúvida, Jerónimo Meira da Cunha avançou que "os futuros leilões de hidrogénio terão em conta a indústria nacional".


Na discussão participaram ainda empresas como a Matifer, Central de Cervejas, Bondalti, Super Bock Group ou Vista Alegre, que garantiram estar atentas às oportunidades que o hidrogénio pode criar, como consumidoras e não só. Paulo Rocha, da Cimpor, classificou a estratégia como "muito interessante", mas destacou que "o processo será lento", pelo que "dificilmente" estará implementado à escala comercial até 2030. Os investimentos que serão necessários para adaptar os equipamentos atuais da indústria, preparados para o gás natural, também suscitaram dúvidas.


Jaime Braga, que representou a CIP na sessão, afirmou que este é um setor no qual "boa parte das tenologias não estão ainda maduras nem em mercado", pelo que "isso coloca cautela na apreciação" do projeto. O responsável também alertou o Governo para a falta de "dimensão económica da estratégia", nomeadamente "quais as tecnologias requeridas, qual a evolução expectável dos custos das tecnologias", bem como uma "análise das vantagens competitivas de Portugal no contexto do mercado de exportação".


Nos contactos que a CIP teve com os seus associados "não houve negação da estratégia, mas existem muitas interrogações sobre a competitividade e o impacto económico na indústria".


No centro da estratégia do Governo está a construção de uma fábrica de hidrogénio em Sines, que será desenvolvida em parceria com a Holanda. Está ainda prevista a construção de uma central solar de 1 Gigawatt, que deverá abastecer um milhão de casas a partir de 2022. O investimento estimado de cerca de quatro mil milhões ao longo desta década, que contará com o apoio de fundos europeus. Mas há mais.


Em junho, o secretário de Estado da Energia já tinha revelado que o objetivo do Governo não passa apenas por ter "uma fábrica de hidrogénio em Sines, uns postos de abastecimento ou uns autocarros", mas sim por desenvolver "todo o mercado do hidrogénio", no qual estejam incluídos "todos os elementos da cadeia de valor".


Nesse sentido, o Governo abriu, no passado dia 18, um processo de manifestações de interesse destinado a todos os players do mercado, com a intenção de ouvir as ideias de empresas, nacionais e estrangeiras, para o desenvolvimento deste setor e "robustecer" assim a candidatura portuguesa ao estatuto de projeto de interesse comum da União Europeia (IPCEI). As candidaturas estão abertas até 17 de julho.


Segundo o Ministério do Ambiente, Portugal tem a ambição de integrar ainda este ano o primeiro IPCEI de Hidrogénio da Europa. Entre as empresas que já manifestaram publicamente o interesse em fazer parte deste mercado constam a a EDP, a Galp ou a REN.


No total, os projetos ligados ao hidrogénio deverão mobilizar cerca de sete mil milhões de euros nos próximos dez anos, a maioria de origem privada.

 

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