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Angela Merkel: Uma década para fazer uma estadista

Faz dez anos que assumiu a liderança da maior economia europeia. Hoje pertence, por mérito próprio, à galeria dos grandes chanceleres alemães, ao lado de Adenauer, Brandt e Kohl e é, como a Economist lhe chamava, uma líder indispensável na Europa e no mundo.

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Eva Gaspar egaspar@negocios.pt 22 de Novembro de 2015 às 10:00
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Cumpre-se neste domingo dez anos desde que, pela primeira vez, Angela Merkel assumiu a chancelaria da maior economia europeia, depois de ter reconquistado o poder para a CDU, que lidera há 15 anos. 

Crise em Atenas, crise em Moscovo, crise em Kiev, drama dos refugiados, crise em Pequim, crise até em Brasília: sempre que a Europa e o mundo tremem, o poder de Angela Merkel aumenta. Porque ela é há dez anos a chanceler da mais robusta economia europeia, quarta maior do mundo, da terceira maior exportadora global, da n.º 1 em eficiência energética. Porque é ela quem governa, e com alianças mais à direita ou mais à esquerda, o único país europeu que saiu mais forte da Grande Crise, âncora do euro, única moeda que, não obstante todos os "ses", rivaliza com o dólar como reserva de valor.


E porque é com Angela Merkel que o país com a história recente mais negra do planeta está a habituar-se à ideia de que tem uma política externa - e uma política externa que pode fazer a diferença, mesmo dispondo de meios militares relativamente escassos ("O exército alemão é tão mal equipado que usou cabos de vassoura em vez de metralhadoras em exercícios da NATO", escreveu em Fevereiro o The Washington Post). 

Graças à sua actuação no palco da diplomacia mundial, Berlim tomou o lugar habitual de Londres e Angela Merkel é hoje a interlocutora privilegiada de Barack Obama no Velho Continente quando o assunto é Grécia, Síria, Rússia, Irão, terrorismo, o auto-denominado Estado Islâmico, espionagem, evasão fiscal ou parceria transatlântica. Porquê? Possivelmente porque dispensa intérpretes quando quer falar directamente com Vladimir Putin; porque nenhum dirigente em funções conhecerá tão bem a História europeia - em particular, a terrível História da Alemanha nazi; porque parece manter a cabeça fria em situações de grande pressão; porque sendo lenta a tomar decisões, as costuma apresentar como o resultado de um exercício, de um método, de ponderação - e fá-lo com determinação. 

Não sendo de todo unânime, Angela Merkel é previsível, e essa previsibilidade tanto alimenta os seus críticos, que a acusam de ser uma líder em "part-time" incapaz de rasgos audazes por não ver mais longe, como os seus apoiantes, que encaram essa obsessão pelo cumprimento das regras que a torna fastidiosamente previsível como fonte de credibilidade e base do seu prestígio. 


Hoje ela é uma dirigente "indispensável", como escrevia recentemente a Economist. Há três momentos-chave em 2015 reveladores da capacidade de compromisso de Merkel, mas também da firmeza com que defende os objectivos e os valores que acredita deverem ser os da Alemanha e da Europa.

Em Maio, a chanceler alinhou no boicote ocidental à exibição militar organizada pelo presidente russo por ocasião das comemorações dos 70 anos do fim da II Guerra, mas no dia seguinte foi mesmo a Moscovo, primeiro para depositar flores junto da estátua do soldado desconhecido e pedir desculpa pelas atrocidades da Alemanha nazi, para a seguir responsabilizar Vladimir Putin pela "anexação ilegal" da Crimeia e avisá-lo de que considera esse acto "uma ameaça à ordem europeia". Só uma mulher poderosa o poderia fazer.  

Depois de ter afirmado que "se o euro falhar, a Europa falhará", tornando cristalino que não acredita que recuos na união monetária não desencadeiem dinâmicas mais profundas e incontroláveis de desintegração, a chanceler apoiou o programa de compra de activos do BCE, opondo-se ao Bundesbank, como já acontecera com o programa de compra de dívida (OMT). Voltou depois a travar a saída da Grécia do euro, opondo-se de novo a um consenso crescente entre os países da união monetária, quebrado por Chipre, Itália e França (negociador discreto do terceiro resgate em cinco anos pedido por Atenas), e fazendo frente ao seu ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, que entretanto a destronou como líder de popularidade em casa, onde continua a perder apoio devido à sua política de abertura relativamente à recepção de refugiados sírios.

Inversamente, a sua aura nunca terá estado tão elevada quando vista de fora. Agosto e o auge do drama dos refugiados ofereceram-lhe o contexto e o pretexto para demonstrar que o passado não se esquece, que a liderança se exerce pelo exemplo e que solidariedade na sua boca não é palavra vã, como muitas vezes tem sido acusada quando o tema é Grécia ou a gestão da crise do euro nas periferias. "Se a Europa fracassar na questão dos refugiados, se esta ligação próxima com os direitos humanos universais se quebrar, então esta não será a Europa que desejámos."

Há alguns anos, Angela Merkel terá dito aos seus próximos da CDU que o destino da Alemanha seria converter-se para a Europa naquilo que os Estados Unidos são para o mundo: um líder de que quase todos precisam, mas que quase ninguém ama. Essa é uma missão que parece cumprida.

Angela Merkel não é apenas uma pessoa - é um sistema: de governação, de exercício do poder e de comunicação, condicionado pelos inúmeros limites da democracia alemã, uma das mais vitais do mundo. Mas o poder da CDU deve-se a ela. Enquanto ela não se esgotar e enquanto não se finar a sintonia particular que conseguiu estabelecer com o povo alemão e com a sua época, a única dirigente contemporânea que hoje pode legitimamente aspirar ao estatuto de estadista não terá sucessor, e eventualmente será de novo candidata a um quarto mandato recorde em 2017.

 
Quem é Angela Merkel?

Muito do percurso de Angela Merkel rima com improbabilidade e talvez a probabilidade que hoje se atribui a uma nova candidatura acabe por se revelar um conjunto vazio. Longe de ser carismática ou oradora inspirada, quem é, afinal, esta mulher a quem Helmut Kohl, seu patrono na política, chamava de "miúda"?

Criada numa família luterana no Leste comunista, formada em Física, com doutoramento na área da Química, converteu-se na primeira mulher a conquistar o poder na CDU e a ascender a chanceler pelo interior de um partido dominado por homens e de base católica. Casada, sem filhos, usa porém o apelido do ex-marido. 

Há um episódio da sua juventude que muitos recordam para traçar uma trave mestra que a própria reconhece no seu carácter.Teria 12 anos e o professor de natação pedira-lhe que mergulhassem de cabeça. Ela terá ficado parada na extremidade da prancha de mergulho durante 45 minutos. Acabou por saltar, já no fim da aula. "Não sou espontaneamente corajosa. Mas penso que o sou no momento certo". Para uns, Angela é uma mulher hesitante, que apenas actua quando adiar deixou de ser opção; para outros, uma xadrezista, metódica e ponderada, que só decide depois de ter antecipado as mil e uma consequências do seu lance.


Nasceu Angela Dorothea Kasner, em Hamburgo, em 17 de Julho de 1954 mas cedo se mudou com a família para Templin, na Alemanha Oriental, a uma hora de carro de Berlim, depois de ter sido oferecida ao pai - estudante de Teologia, pastor luterano e progenitor "exigente" mas também "muito ausente" na educação dos três filhos - a paróquia da pequena cidade.

Estudou depois Física na Universidade de Leipzig, cidade mais distante da casa paterna do que Berlim, onde conheceu o jovem Ulrich Merkel. Casou em 1977, tinha 23 anos. Divorciou-se cinco anos mais tarde, conservando o apelido Merkel que manteve mesmo após o segundo casamento, em 1988, com o discreto Joachim Sauer, químico.

Dois anos antes, doutorara-se com uma tese em torno do cálculo da velocidade de reacções de desintegração de moléculas. Com distinção. "Sempre quis ter poder… É a minha natureza. Antes sobre as moléculas, agora na política", afirmou em vésperas de se converter chanceler em 2005, numa entrevista citada pelo jornal espanhol ABC.

Fluente em russo, trabalhou num instituto científico na parte oriental de Berlim. Só mudou de campo - profissional e territorial - após a queda do Muro de Berlim, em 1989.

É com a reunificação que entra decididamente na política. Adere à CDU, apadrinhada por Helmut Kohl, que carinhosamente a chamava de "miúda".

Foi pela mão do pai da reconciliação alemã que assumiu cargos ministeriais, primeiro como ministra da Mulher e da Juventude (logo após a reunificação, em 1990), e depois como ministra do Ambiente.

De início desvalorizada entre os seus pares, conquistou progressivamente simpatias e protagonismo na CDU.


No final dos anos 90, com a retirada definitiva de Helmut Kohl, envolto num escândalo de corrupção ligado a financiamentos ocultos do partido, Merkel declara que era preciso reconstruir a CDU do zero e propõe-se assumir as rédeas da União Democrática Cristã.

Não é aceite como candidata a chanceler em 2002, mas o caminho fica livre após a derrota nas urnas de Edmund Stoiber, que governava a Baviera há uma década.

Em 2005, a CDU ganha as eleições ao SPD - com quem se vê, porém, obrigada a formar uma "Grande Coligação" de Governo - convertendo-se na primeira mulher e na mais jovem chanceler alemã. Em 2009, a CDU volta a sair vencedora e permanece no poder, desta feita numa coligação "mais natural" com os liberais do FDP. Em 2013, voltou a vencer, reeditando a coligação ao centro, com o SPD.


A circunstância de ter sido criada num ambiente de contradições poderá ajudar a explicar a sua personalidade ambígua. Na mesma entrevista citada pelo ABC, Merkel terá confirmado que a religião continua a ser uma fonte inspiradora - mas não necessariamente decisiva. Quando lhe perguntaram o que levaria para uma ilha deserta, respondeu "a Bíblia", para logo acrescentar que não seria mau levar também "um telemóvel, uma vela e uma faca".

Por detrás de um rosto inescrutável, ora esfíngico, ora quase ingénuo, esconder-se-á uma determinação implacável.

A Der Spiegel, revista mais conotada com a social-democracia, chegou a chamar-lhe "Mutti", referência carinhosa a mãe, para no auge da crise do euro, a acusar de cegueira. 

Foi por várias vezes declarada a mulher mais poderosa do mundo pela revista norte-americana Forbes. Chegou a ser dada como provável vencedora do Prémio Nobel da Paz neste ano. Por quatro vezes também, o Negócios considerou-a a "mais poderosa" de Portugal.


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