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Gigantes da consultoria facilitam e legitimam negócios de Isabel dos Santos

As multinacionais PwC, McKinsey, Boston Consulting Group, KPMG, Deloitte e EY são expostas nos “Luanda Leaks” por terem beneficiado de contratos milionários e, por atos ou omissões, contribuído para o império da filha do ex-presidente angolano.

Paulo Duarte
António Larguesa alarguesa@negocios.pt 20 de Janeiro de 2020 às 14:56
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Os mais de 715 mil documentos que detalham os esquemas financeiros de Isabel dos Santos e do marido, Sindika Dokolo, mostram também como uma vasta e influente rede global de empresas de consultoria e de contabilidade ajudou a acumular uma fortuna estimada em mais de dois mil milhões de dólares e a espalhá-la pelo mundo, de Hong Kong aos Estados Unidos, passando por Portugal.

 

A investigação conduzida nos últimos meses por 34 órgãos de comunicação social pertencentes ao Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, que analisaram 356 gigabytes de dados, denuncia as principais consultoras do mundo, como a PwC, McKinsey, Boston Consulting Group (BCG), por "facilitarem" estes lucros gerados a partir da riqueza de um país e por "emprestarem a sua legitimidade" aos negócios que tornaram a filha do ex-presidente angolano na mulher mais rica de África.

 

"As faturas apontam para dezenas de milhões de dólares destinados a estas firmas. Aceitaram ser pagas por trabalho para o governo angolano através de empresas de fachada – ligadas a Isabel dos Santos e aos seus associados – que estavam em locais no exterior há muito usadas para evitar impostos, esconder riqueza ilícita e lavar dinheiro. O acordo permitiu que ela mantivesse uma grande parte dos fundos do Estado, como mostram os registos", escreve o The New York Times na edição desta segunda-feira, 20 de janeiro.

 

Foi isso que aconteceu com o BCG e com a McKinsey no contrato que rubricaram para ajudar a reestruturar a petrolífera estatal Sonangol, por exemplo, ao concordarem ser pagas por uma empresa sediada em Malta e detida pela filha do então líder angolano, em vez de ser o próprio governo a liquidá-lo. "Bandeiras vermelhas óbvias", segundo os analistas, que deviam também ter sido acenadas quando a PwC prestou serviços de consultoria, incluindo fiscal, a duas dezenas de empresas controladas por Isabel dos Santos e pelo marido, do total de mais de 400 detetadas nos "Luanda Leaks" – incluindo 155 sociedades portuguesas e 99 angolanas.

 

Foi o caso da Victoria Limited, um das empresas maltesas que controlavam a marca de joalharia de luxo De Grisogono, na Suíça. Quando os contabilistas da PwC escreveram no esboço do relatório financeiro anual que os donos, em última instância, eram Sindika Dokolo e o Executivo angolano, logo foram advertidos por António Rodrigues, diretor da Fidequity (gere várias das empresas da família) de que essa informação "não devia ser mencionada" face a notícias incómodas que começam a surgir. "Anotado – vamos discuti-lo internamente e revertê-lo", respondeu o quadro desta consultora.

 

Da fuga da banca à "aparência de respeitabilidade"

 

Outra mensagem intercetada nesta investigação, proveniente dessa mesma empresa de gestão de participações, que tem sede na lisboeta avenida da Liberdade e é liderada por Mário Leite da Silva, mostra que, ao invés, vários bancos internacionais começaram a recusar-se a trabalhar com a família, por estarem vinculados a regras mais apertadas em relação a clientes com ligações políticas.

 

"Estes tipos ouviram falar da Isabel e estão a fugir como o diabo da cruz", escreveu num e-mail o responsável de corporate finance da Fidequity, Eduardo Sequeira, em 2014, isto depois de o espanhol Santander se ter recusado a trabalhar numa das operações em que estava envolvida, à imagem do que aconteceu, entre outros, com o Citigroup ou o Deutsche Bank.

 

Um cenário distinto do que acontecia com as gigantes da consultoria – e também as outras três das "big four" aparecem referenciadas: KPMG, Deloitte e EY. Ricardo Soares de Oliveira, professor de política internacional na Universidade de Oxford, resume ao jornal americano que "pegaram no dinheiro e fizeram o que os seus clientes pediram". "Elas estão lá [em Angola] como fornecedoras polivalentes, para tudo o que essas elites tentem fazer. Não têm estatuto moral, são o que fizerem delas", critica o académico especializado neste país africano.

 

Na sequência da publicação destas notícias que revelam transações suspeitas e esquemas alegadamente fraudulentos, a PwC, que é uma das companhias mais visadas nesta mega investigação jornalística, confirmou esta manhã ter tomado "medidas para encerrar qualquer trabalho em curso para entidades controladas por membros da família Dos Santos".

 

[As consultoras] estão em Angola como fornecedoras polivalentes, para tudo o que essas elites tentarem fazer. Não têm estatuto moral, são o que fizerem delas. Ricardo Soares de Oliveira, professor de política africana na Universidade de Oxford

 

Após ter analisado a documentação obtida pelo consórcio internacional, incluindo informações financeiras da PwC e e-mails trocados entre os seus consultores e os gestores dos ativos de Isabel dos Santos, Robert Mazur, que trabalhou numa unidade estatal de combate à lavagem de dinheiro nos EUA, conclui que "os contabilistas e os fornecedores de serviços financeiros envolvidos nestas transações deviam ter considerado seriamente a apresentação de um relatório de transações suspeitas".

 

"Se não facilita a corrupção, proporciona uma aparência de respeitabilidade que faz com que o que está a acontecer seja visto como aceitável ou mais aceitável do que deveria" concorda Tom Keatinge, diretor do Centro de Estudos para a Segurança e Criminalidade Financeira, em declarações ao programa Panorama da BBC, ao qual Isabel dos Santos disse que Angola escolheu um caminho em que "todos vão ficar a perder".

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