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O que é que a Mariana tem?

A deputada do Bloco saiu para a ribalta quando enfrentou Salgado na comissão de inquérito ao BES e é agora um dos melhores trunfos do Bloco junto da opinião pública. Mas o que tem a jovem deputada que eclipsa tudo à sua volta?

Miguel Baltazar/Negócios
Filomena Lança filomenalanca@negocios.pt 21 de Setembro de 2016 às 00:01
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Os proprietários com património elevado vão pagar mais imposto. A notícia foi avançada pelo Negócios no passado dia 15 de Setembro e, nessa mesma manhã, Mariana Mortágua e Eurico Brilhante Dias foram destacados pelos respectivos partidos para comentarem a medida, que está em preparação para o próximo Orçamento do Estado e que resulta das negociações entre o PS e Bloco. Os dois deputados falaram  nos Passos Perdidos do Parlamento, mas foi Mariana quem explicou, primeiro, o que estava sobre a mesa, quem disse que o desenho da medida ainda não está fechado e quem garantiu até à exaustão que a classe média não seria penalizada. 

cotacao Mariana representa uma classe política renovada, que não
é conhecida por ser corrupta e que está a lutar por coisas, independentemente de se concordar ou não com elas.
Carlos Coelho Presidente da Ivity Brand

E quando a conferência de imprensa terminou, o debate estava lançado e o Bloco de Esquerda estava, definitivamente, colado ao novo imposto sobre o património imobiliário, como se este tivesse sido anunciado em primeira mão por Mariana Mortágua. Como se fosse o "seu" imposto, como alguém já disse. Não foi assim, de facto, mas a deputada do Bloco tem esse "efeito". O "efeito Mariana", diz Rodrigo Saraiva, director-geral da Ipsis. Mas que efeito é esse? O que tem esta deputada que eclipsa tudo à sua volta?

Tem, desde logo, um estilo muito próprio, consideram os especialista em comunicação ouvidos pelo Negócios. "Diz coisas amargas com um ar muito doce. E o agridoce funciona muito bem em termos de imagem", afirma Carlos Coelho, especialista em marcas e presidente da Ivity Brand. "Afronta, mas sempre com serenidade. Põe o dedo na ferida, mas com alguma inocência, sem a agressividade de um Francisco Louçã, por exemplo".

Ideologias à parte, também António Cunha Vaz,  da Cunha Vaz e Associados lhe reconhece méritos. "Ela está atenta, estuda os temas e joga na antecipação, o que lhe permite mostrar aos seus eleitores que o Bloco faz parte da solução e que ajuda a montar as medidas. É inato e ela sabe jogar com isso", afirma o especialista em comunicação.

A fórmula da "acidez com doçura"

Mariana é alentejana. Nasceu no Alvito em Junho de 1986, a poucos quilómetros de Beja, onde fez o secundário. A política, como ela própria diz, é coisa que lhe está no sangue. O pai é Camilo Mortágua, um histórico dirigente anti-fascista da LUAR que participou em inúmeros episódios, como a tomada do navio Santa Maria, em 1961, ou o assalto ao Banco de Portugal na Figueira da Foz, em 1967.

Mudou-se para Lisboa e para o ISCTE, para estudar economia, e foi no consulado de Louçã, de quem é próxima, que  chegou pela primeira vez ao Parlamento, como assessora de economia e finanças do partido. Já como deputada,  saltou para o palco mediático durante a comissão parlamentar de inquérito ao BES, no final de 2014. Quando lá esteve Ricardo Salgado, disse-lhe directamente: "Não deixa de ser curioso que o ‘Dono Disto Tudo’ apareça aqui como a vítima disto tudo". Salgado ainda se exaltou, mas acabaria a elogiá-la: "Mostra que estuda bem os assuntos".

Nessa altura, "as pessoas viram nela uma de si. Viram alguém que, com descontracção, mas seriedade, demonstrou confiança, enfrentou os poderes do regime e transmitiu genuinidade e coragem", afirma Rodrigo Saraiva. Foi o seu lançamento. Nas legislativas de 2015, em que o Bloco teve o seu melhor resultado de sempre, muito se deveu a Mariana Mortágua, considera o especialista.

Afinal, acrescenta Carlos Coelho, ela "representa uma classe política renovada, que não é conhecida por ser corrupta e que está a lutar por coisas, independentemente de se concordar ou não com elas". A deputada, sublinha, "sabe como comunicar e adopta um tom calmo que funciona. É a tal fórmula de acidez com doçura".

Além disso, afirma, por seu turno, António Cunha Vaz, há toda uma estratégia do Bloco em ser ela "a primeira a comunicar, para condicionar o PS e para mostrar que o Bloco de Esquerda faz parte do arco do poder". Na verdade, reconhece "ela atrai atenções e há uma paixão que se criou à sua volta".

Ao Bloco, Rodrigo Saraiva deixa um alerta: a Mariana "vai a todas, joga em todas as posições e acaba por ter um excesso de exposição que é negativo".  Os bloquistas "não estão a proteger o seu melhor activo, e isso é um erro".

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