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Europarque acumula prejuízos e sonha agora com os Alpes

Nacionalizado em 2015 e entregue a sua gestão à Câmara de Santa Maria da Feira, o Europarque, cuja exploração é cada vez mais deficitária, vai tentar seguir o exemplo da Alpexpo, parque de exposições da cidade francesa de Grenoble, aponta um estudo de Augusto Mateus.

Nacionalizado pelo Estado em 2015, o Europarque é gerido desde então pela empresa municipal Feira Viva. Paulo Duarte
Rui Neves ruineves@negocios.pt 08 de Novembro de 2018 às 15:15
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"O Europarque e a Internacionalização da Economia Metropolitana – Cenários de Desenvolvimento" é o nome do estudo, encomendado à E Y – Augusto Mateus & Associados, que custou 52 mil euros e será publicamente apresentado na tarde desta quinta-feira, 8 de Novembro, no Europarque, numa sessão conjunta promovida pela Associação de Municípios das Terras de Santa Maria e a Área Metropolitana do Porto.

 

Segundo este estudo de 112 páginas, a que o Negócios teve acesso, são avançados dois cenários de desenvolvimento futuro do Europarque, apontando-se "desde já como prioritária" a implementação daquele que, de acordo com os seus autores, "pode ser considerado como opção imediata, menos exigente em recursos".

 

Este cenário, "considerando os constrangimentos actuais", visa "redinamizar o Europarque como infra-estrutura local e regional, com vocação para congressos, exposições e eventos, mas também com um cariz multiusos mais alargado e uma maior integração na envolvente de proximidade".

 

Aumentar o número de congressos e conferências, assim como os espaços interiores para actividade permanentes, reforçar a equipa residente e ponderar articular a gestão do Europarque com uma agência de investimento municipal e/ou com o nível intermunicipal, são algumas das medidas das acções propostas para corporizar este cenário.

 

Após o exercício de "benchmarking" nacional e internacional com equipamentos similares, a equipa que elaborou este estudo concluiu que, para concretizar o "cenário prioritário", o Europarque deverá ter como "referencial" a Alpexpo, parque de exposições de Grenoble, cidade situada nos Alpes franceses.

 

A Alpexpo, que é controlada pelo município local, tem um efectivo de 38 pessoas e facturou seis milhões de euros no ano passado. De acordo com o seu plano estratégico, a ambição projectada de crescimento, para atingir os 9,5 milhões de euros em 2021, "alicerça-se essencialmente no mercado local, regional e nacional, em virtude de um maior enfoque comercial, de uma política de comunicação mais musculada e de uma forte estratégia digital".

 

Um desafio hercúleo para o Europarque, que continua a não conseguir estancar a queda do volume de negócios e a ter uma exploração deficitária, gerando "cash flows" de exploração negativos.

 

"Na verdade, operacionalizar um adequado redimensionamento do Europarque e alcançar a sua viabilidade económica configura um desiderato que não se revela nada fácil, a acreditar nos últimos números oficiais, em virtude da queda verificada entre 2016 e 2017 no nível de actividade (menos 21%) e na agudização do EBITDA (menos 17%), o qual se exibe cada vez mais negativo (-392 mil euros)", alerta o estudo.

 

Desde que a sua gestão passou para as mãos da empresa municipal Feira Viva, em Abril de 2015, o EBITDA carrega no vermelho e a facturação do Europarque não pára de cair, para 383 mil euros em 2017, menos 100 mil euros do que no ano anterior. Em 2011, as receitas ultrapassaram o valor de um milhão de euros.

Um "elefante branco" nacionalizado em 2015

Localizado em Santa Maria da Feira, a 25 quilómetros do Porto, com 150 mil metros quadrados de área, 35 espaços, pavilhões de exposições, salas de congressos e reuniões e milhares de lugares de estacionamento, foi construído sob a liderança da Associação Empresarial de Portugal (AEP), então encabeçada por Ludgero Marques, o grande mentor desta obra.

 

Foi inaugurado a 8 de Abril de 1995, com a presença do então primeiro-ministro Cavaco Silva e mais de 1.200 convidados. O governo cavaquista tida dado um aval estatal ao financiamento de 35 milhões de euros para que fosse erguido o maior centro de congressos do país.

 

Ao longo desse ano, o Europarque foi palco de 83 eventos, tendo atraído mais de 50 mil pessoas.

 

O Europarque acolheu, entre outros, dois importantes acontecimentos: a Cimeira de Chefes de Estado da União Europeia e o sorteio da UEFA para os Jogos de qualificação do Euro 2004.

 

O primeiro decorreu a 19 e 20 de Junho de 2000 com a presença, em Santa Maria da Feira, dos 15 chefes-de-estado da UE de então.

 

O sorteio para os jogos de qualificação do Euro 2004, por seu lado, aconteceu a 25 de Janeiro de 2002. Esta cerimónia, que durou cerca de 30 minutos, foi transmitida em directo por 30 cadeias de televisão e 13 rádios europeias.

 

Entre 1995 e 2012, o Europarque acolheu mais de três mil eventos, ultrapassando os dois milhões de visitantes.

 
Projectos que não saíram do papel

O crescimento da actividade do Europarque levou a que em 2006 tenha sido equacionada e anunciada a ambição de expandir este complexo, num investimento de 500 milhões de euros e que visava infra-estruturas como um centro de exposições cinco vezes maior, hotéis, um pólo tecnológico, um museu e incubadoras de empresas. Mas o projecto morreu.

 

Três anos depois, a AEP anunciou um outro projecto igualmente ambicioso para o Europarque, que visava a instalação de 150 a 200 empresas, unidades hoteleiras, uma escola e um campo de golfe com sete quilómetros de percurso de jogo, um centro comercial "high tech", um centro hípico e um centro cultural e artístico. Orçado em 460 milhões de euros, prevendo a criação de cinco mil postos de trabalho, este projecto também morreu.

 

Esta ambição "demonstrava-se patentemente irrealista dado o quadro económico à altura e os resultados gerados pela actividade do Europarque", enfatiza o estudo assinado por Augusto Mateus.

 

A viabilidade do Europarque acabou por ser posta em causa pelo sucessor de Ludgero Marques, em 2008 - "O Europarque é um disparate. Foi e é um ‘flop’", afirmou, na altura, José António Barros.

 

Em Outubro de 2011, terminado o prazo para pagar oito milhões de euros aos três sindicatos bancários, liderado pelo BPI, a associação proprietária do complexo entrou em incumprimento.

 

O Estado, enquanto avalista do equipamento, viu-se assim obrigado a assumir uma dívida de 31 milhões de euros.

 

Em Novembro de 2011, em declarações ao Negócios, Ludgero Marques insistia: "O Europarque não é nenhum ‘flop’. Foi e é uma obra fantástica. Mais nada!"

 

Cenário 2: "Europarque: Plataforma nacional e internacional para a ‘meetings industry’"

 

Com o maior centro de congressos nas mãos, sem saber muito bem como rentabilizar o complexo, o Governo acabou por aprovar, em 2015, a dação do Europarque, a custo zero e por um prazo de 50 anos, à Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, ficando esta com total liberdade para arrendar, contratar, ceder e fazer as parcerias que julgar adequadas.

 

Desde então, o Europarque encontra-se sob a alçada da empresa municipal Feira Viva, que há dois anos deu uma nova imagem ao complexo, que adoptou como marca "Europarque – Cidade dos Eventos".

 

A publicação britânica "Business Destinations" identifica o Europarque como um dos 10 melhores destinos a nível mundial na área "conferências".

 

Entretanto, de volta ao estudo de Augusto Mateus, há um segundo cenário de desenvolvimento futuro do Europarque apontado, o de se corporizar como uma "plataforma nacional e internacional para a ‘meeting industry’", que corresponde, no essencial, ao projecto inicial.

 

"É um cenário mais ambicioso e mais exigente em recursos, no qual se visa redinamizar o Europarque como centro de congressos, de exposições e de grandes eventos, com projecção nacional e internacional", explica o estudo.

 

Considerando como "opção imediata" o primeiro cenário, de se constituir como "pólo de desenvolvimento local e regional", o estudo recomenda que se avance com "acções preparatórias para o cenário 2", entre as quais "a elaboração de um plano de internacionalização".

 

Para concretizar este cenário, o estudo aponta como referenciais três grandes organizações internacionais do sector - logo à cabeça, a britânica Redd Exhibitions, líder mundial, presente em 30 países, contando com mais de sete milhões de visitantes e uma facturação de aproximadamente 1,3 mil milhões de euros.

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