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Avelino de Jesus 10 de Maio de 2020 às 18:30

Um novo confinamento? I – A futilidade

O estudo sistemático da pandemia actual, com dados reais e não apenas com modelos matemáticos apriorísticos, começa a apontar para a futilidade do confinamento e para a vantagem do modelo de moderado afastamento social como o seguido pelo Suécia.

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“Penso que, quando contarmos o número de mortes por covid-19 em cada país daqui a um ano, os números serão semelhantes, independentemente das medidas tomadas. A nossa tarefa mais importante não é parar a disseminação, o que seria fútil, mas concentrarmo-nos em dar às infelizes vítimas um tratamento óptimo.”

Johan Giesecke, “The invisible pandemic”, The Lancet, 5 de Maio de 2020.

O primeiro-ministro reafirmou várias vezes que poderá voltar a fechar o país, ameaçando-o de fechar e abrir ao ritmo das ondas de covid-19. Esta posição representa uma mudança relativamente à conversa inicial: o confinamento era então apenas para ganhar o tempo para aplanar a curva pandémica e apetrechar o SNS.

Não parece que seja avisado avançar com novos confinamentos nem para demorar na libertação da população dos actuais constrangimentos. Tal seria ineficaz para controlar a pandemia e destrutivo para a saúde, a vida e a economia dos portugueses.

Portugal manteve um dos mais severos confinamentos. Se a ignorância e o medo travaram a coragem para fazer diferente, agora já se conhece o suficiente para não voltar a cometer o mesmo erro.

A solução do confinamento prevaleceu no mundo e em especial na Europa. Houve no entanto algumas diferenças que fornecem importante material de análise.

O estudo sistemático da pandemia actual, com dados reais e não apenas com modelos matemáticos apriorísticos, começa a apontar para a futilidade do confinamento e para a vantagem do modelo de moderado afastamento social como o seguido pelo Suécia.

Um estudo(1) muito recente sobre dados reais de Itália, França, Espanha e Reino Unido, países com confinamento elevado, compara com a Suécia ou mesmo com a Áustria. Comparando a trajectória da pandemia, antes e depois do confinamento, não verificou descontinuidade na evolução da pandemia (taxa de crescimento, tempo de duplicação, tendências dos números de reprodução). Extrapolando as tendências pré-confinamento, estimaram-se as mortes na ausência daquele, concluindo-se que não foi salva qualquer vida. Ou seja, o bloqueamento extremo daqueles países não acrescentou nada ao moderado distanciamento social adoptado pela Suécia.

O resultado do estudo científico desta questão pode ser ilustrado através da observação e da reflexão de senso comum de alguns dados de fácil compreensão.

Apresento na tabela dois indicadores. Um indicador de todas as mortes excessivas relativamente à tendência dos anos anteriores; um indicador do grau de severidade do confinamento. Dada a dificuldade de avaliar, com o rigor necessário, as mortes devidas à pandemia é conveniente trabalhar com todas as mortes, atribuindo – provisoriamente e como primeira abordagem – todas as mortes em excesso à covid-19(2).

O argumento principal de travar novos confinamentos não é de natureza económica. Antes de abordar a questão económica é necessário considerar os problemas da vida e da saúde que sobrelevam sobre a primeira.

O que o melhor conhecimento já disponível sugere é um distanciamento social moderado que não perturbe demasiado o acesso aos cuidados médicos gerais e não provoque sérios e nocivos efeitos colaterais sobre a saúde e a esperança de vida da população. Abordaremos na segunda parte do artigo o problema destes efeitos do confinamento. 

(1)Thomas Meunier. Full lockdown policies in Western Europe countries have no evident impacts on the COVID-19 epidemic. MedRxiv, May 1, 2020.

(2)Os valores das mortes por Covid são pouco precisos. Há por um lado a dificuldade de definir a causa da morte quando se trata de pessoas idosas com várias fragilidades; por outro lado, há a tentação de os governos usarem a definição mais lata ou mais estrita conforme julgam ser mais conveniente exibir mais ou menos mortos por covid-19.

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico


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