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Avelino de Jesus 11 de Maio de 2020 às 19:27

Um novo confinamento? II – A perversão

Como se viu no artigo anterior, a política de confinamento não teve o efeito positivo proclamado sobre as mortes por covid-19. Veremos agora que os efeitos negativos são certos e de grande dimensão o que reforça a necessidade de rejeitar com veemência a política do confinamento.

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Os efeitos colaterais do confinamento são de dois tipos(1).

Primeiro, o efeito de aceleração da morte de pessoas fragilizadas que, devido à concentração do sistema de saúde na pandemia, descura e desincentiva o recurso a cuidados médicos devidos pelas mais diversas doenças não covid. Estas mortes podem, por sua vez, dividir-se em dois grupos. Os que morrem a curto prazo durante o próprio período de confinamento e os que morrem mais tarde pelo agravamento mais gradual das doenças.

Segundo, as mortes devidas a efeitos psicossociais que também podem ocorrer durante ou após o período de confinamento.

As mortes devidas a causas psicossociais provocadas pelo confinamento imposto pelos poderes públicos têm sido objecto de muitas referências, mas só agora se está a proceder a avaliações científicas. Recentemente, foi divulgado um estudo(2) para a população suíça com dados preciosos. Aquele trabalho procura avaliar a redução do tempo de vida provocado na população suíça – através do álcool, da depressão, do divórcio, da redução do contacto social e da violência doméstica – pelo confinamento de massa durante três meses. Os resultados são severos: perda média de 0,205 anos de vida por pessoa (metade deve-se ao álcool). Estes efeitos atingem a população de forma muito desigual; de facto, concentram-se em apenas 2,1% da população, o que significa que as pessoas desta minoria sofrem, em média, uma redução de 9,79 anos de vida. No caso português, ponha em cima disto uma população com um nível de vida consideravelmente mais baixo que o suíço.

Para a população portuguesa os números do estudo suíço resultam na perda de 2.152.500 anos de vida. Para ser cruelmente objectivo, este valor pode ter este significado: é como se – considerando que cada criança portuguesa tem uma esperança média de vida de 80 anos – matássemos à nascença cerca de 27.000 bebés; ou em alternava representa a eliminação de cerca de 215.000 portugueses de 70 anos. Por qualquer dos métodos eliminávamos os 2.152.500 anos de vida aos portugueses.

O efeito letal do confinamento em Portugal não se esgota no acima referido.

Outra abordagem complementar dos efeitos do confinamento pode ser feita através da tabela anexa. Os dados da mortalidade em Portugal durante o período de confinamento permitem fazer uma contagem – ainda que rudimentar – das mortes excessivas, isto é, acima da média dos últimos quatro anos. Durante as semanas 11 a 17 morreram em Portugal 16.500 pessoas – um valor que está 2.100 acima da média do período 2016-2019. Como as mortes por covid-19 foram no período cerca de 1.000, o resto, que atribuímos aos efeitos colaterais do confinamento, são 1.100.

Nesta contagem falta avaliar os mortos provocados pelo confinamento, mas que ocorrerão mais tarde fora do período considerado.

Do ponto de vista político, o confinamento tem um significado claro. Por um lado, representa um enorme reforço do intervencionismo do Estado. Por outro, significa a transferência do fardo de uma parte da população para as parcelas dos mais frágeis: os mais pobres de entre os idosos, os doentes e os mais afectados por perturbações psicossociais. Grosso modo, implica o sacrifício da população que, infelizmente, ainda está sem poder recorrer aos serviços privados de saúde.

Será por puro acaso – ou engano – que a esquerda se agarrou, tão fortemente, à política do confinamento?

(1)Como omite nestes dois artigos a análise económica da pandemia, não considerei um 3.º tipo de efeitos sobre a saúde e a vida das populações: as severas consequências na duração da vida e da saúde do desemprego e das falências provocados pelo confinamento. As consequências do desemprego  e das falências são conhecidas há muito. Os vários métodos de cálculo usados dão resultados que vão de 40% a 100% do risco de morte adicional da população desempregada em relação à empregada.

(2)Dominik Moser,  Jennifer Glaus,  Sophia Frangou,  Daniel Schechter. Years of life lost due to the psychosocial consequences of COVID19 mitigation strategies based on Swiss data. MedRxiv, May 2, 2020.

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico



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