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Bernardo Rodo 08 de Maio de 2020 às 09:20

As Novas Ordens Mundiais

As organizações deverão agir em função da evolução do eixo trabalho-consumo. Por outras palavras, aquilo que as empresas serão no futuro passará pela forma como se relacionam nesta fase de transição com os seus colaboradores (trabalho) e com os seus clientes (consumo).

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A Segunda Revolução Industrial, conhecida como Revolução Tecnológica, originou uma evolução comportamental das populações que, no início do século passado, se concentraram nas chamadas cidades-fábrica. Com alterações profundas na organização social (nutrição, habitação, vestuário), estavam criadas, pela primeira vez, as condições para o crescimento económico sustentável assente em dois princípios essenciais: expectativa de emprego vitalício e rendimento fixo.

Como consequência, surgia uma nova classe média com poder de compra, cujos sacrifícios de vida e de trabalho seriam convertidos em consumo. Apesar de ser uma característica dominante da sociedade moderna, a rigidez da relação trabalho-consumo foi evoluindo com um sistema de valores mais complexo incubado nos anos 60, baseado na democratização de conceitos como individualismo, escolha, participação, conectividade.

Segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, esta evolução pressupõe que as relações entre pessoas e organizações sejam mais fluidas, mas também mais frágeis, com maior independência do indivíduo no seu desenvolvimento pessoal e na relação com o trabalho, maior igualdade de oportunidades, e em contrapartida uma sobreposição lenta e gradual dos interesses económicos e dos interesses sociais e humanos. É neste contexto que a iniciativa individual encontra o seu espaço. O indivíduo não “transaciona” apenas a sua capacidade de trabalho, mas também as suas ideias.

O equilíbrio e a cooperação de poderes entre nações que decorrem das grandes transformações mundiais, como aquela que agora atravessamos, as “Novas Ordens Mundiais”, articuladas com a competência militar, estão necessariamente alicerçadas na forma como os agentes económicos se relacionam entre si. A história demonstra que, nestes momentos decisivos, a vantagem é de quem consegue impor aos outros a forma como a sociedade se vai reestruturar. A forma como um mundo fragmentado, com interesses divergentes, se vai interconectar e autossustentar.

Para saber quem paga a conta, devemos compreender como estas forças se esbarram na encruzilhada em que nos encontramos. A solução mais consensual de saída para um ecossistema reestruturado seria cada elemento da cadeia de valor – do trabalhador ao investidor – pagar uma parte da fatura na proporção da sua capacidade de recuperação, com o apoio dos bancos centrais. Todavia, uma das diferenças entre uma crise económica e a possível emergência de uma Nova Ordem Mundial é, por definição, a redistribuição de riqueza no novo ciclo, e é da natureza das pessoas e das organizações preservar a sua condição como a conheciam no ciclo anterior.

Importa ainda perceber, caso não nos entendamos, quem dita as regras da reorganização? Os Estados Unidos, que têm o dólar como moeda de suporte de 60% das economias mundiais, mas com uma elevada exposição da dívida externa à China e ausência de liderança global na resposta à pandemia. A Europa, com uma atitude financeira mais conservadora (uma lição de ter sido o epicentro de duas guerras mundiais), mas com uma mentalidade pouco solidária entre os seus Estados. A China, com concentração de capacidade produtiva, e mais recentemente tecnológica, mas com uma economia subsidiada por um regime autocrático e crescimento dependente da exportação.

A inexistência de uma liderança óbvia, como foram os Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, pode simplesmente significar a continuidade da competição estratégica entre estes três candidatos. Uma vez resolvida esta questão, vai surgir como elemento decisivo no processo de reorganização das economias a sua capacidade de adaptação à escala das organizações e, neste ambiente fluido, também dos indivíduos. Neste aspeto, estão em vantagem as culturas ocidentais, nas quais a inovação e a criatividade já são estruturais.

Acreditar no contributo do indivíduo perante a magnitude da tarefa é possivelmente um reduto de otimismo, mas não é ilógico. Sabemos que é necessário reorganizar os sistemas de forma a assegurar processos produtivos sustentáveis. Sabemos que não existe uma força global capaz de assumir a liderança. Sabemos que o grande capital vai tapar alguns buracos por não ter alternativa, e também que vai haver uma transferência de riqueza. Sabemos que as organizações estão divididas entre aquelas que vão defender a mudança e aquelas que vão defender a continuidade. Sabemos que as decisões de curto prazo estão condicionadas pela alocação eficiente de recursos escassos.

Sabendo tudo isto, as organizações deverão agir em função da evolução do eixo trabalho-consumo. Por outras palavras, aquilo que as empresas serão no futuro passará pela forma como se relacionam nesta fase de transição com os seus colaboradores (trabalho) e com os seus clientes (consumo). A sua capacidade de amenizar o sentimento social de imprevisibilidade, de estimular o desejo de retoma, de demonstrar a diferença entre o difícil e o impossível, vai determinar as escolhas dos seus consumidores, quando as puderem fazer novamente.

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