José Miguel Júdice
José Miguel Júdice 23 de outubro de 2019 às 09:30

Partidos a esquadro e regra?

A minha tese é que seria mais sensato que os dirigentes partidários da direita passassem a gostar mais dos seus eleitores e com isso a falarem para o que eles querem e não para o que acham que os eleitores devem querer. Talvez isso reduza a abstenção.

Em Portugal há uma tendência cuja genética ainda não descobri: quando se pretende contrariar uma tese ou teoria, raras vezes se refere o autor ou autores da teoria criticada. O mundo não acabará por causa disso, mas torna o debate mais difícil. É que a reação natural de quem defendeu algo diferente costuma ser ficar calado, até pelo receio tão português de se pensar que se responder se estará a pôr nos bicos dos pés.

 

Vem isto a propósito de um artigo de Adolfo Mesquita Nunes, que responde a uma tese segundo a qual, e cito, "o sistema [político-partidário] tem de rearranjar-se para que cada partido represente uma homogénea e estanque família ideológica", no fundo e à direita, "os liberais...na IL, os nacionalistas no Chega, os conservadores no CDS e os sociais-democratas no PSD".

 

Admito que não estivesse a pensar em mim quando escreveu. Seja como for, gostosamente enfio a carapuça, até porque admiro o autor. Mas não a enfio até ao ponto de tapar os olhos.

 

Por isso tenho de afirmar que (i) não acho que "o sistema tem de rearranjar-se", e (ii) não acho que cada partido tenha de representar "uma homogénea e estanque família ideológica".

 

Por isso nada tenho a dizer contra as razões organizadas (a regra e esquadro…) por Mesquita Nunes para recusar a minha tese. Apenas tenho de revelar que essa não é a minha tese…

 

E depois deste aviso, vamos ao que interessa. Há 40 anos que os partidos da direita portuguesa têm sido mais capazes de colaborar serenamente entre si do que cada um deles aceitar a sua diversidade interna: as guerras de tendências, as ostracizações de colegas de partido, as "fake news" para os sangrar, as "fatwa" destinadas a destruir a legitimidade dos que pensam diferente da ortodoxia do momento, dariam um texto com dezenas de páginas.

 

Sendo assim, dois tipos de edifício político parecem possíveis e nenhum deles exige instrumentos geométricos para ser construído: (a) os partidos diluem ainda mais a sua identidade, reforçam o seu atual "patchwork" ideológico e vão continuar todos a lutar por um mesmo eleitorado mítico, ou (b) os partidos assumem uma matriz ideológica básica, admitem as naturais nuances que Mesquita Nunes parece achar que eu recusaria, mas vão dirigir-se preferencialmente a certos e diversos eleitorados.

 

E parece que tenho razão em concreto: veja-se (i) no PSD a guerra evidente entre "verdadeiros sociais-democratas" e todos os outros apodados de "liberais", e (ii) no CDS a guerra ainda intestina entre "conservadores" e "liberais".

 

Aliás tudo é ainda pior: conheço ainda razoavelmente bem o PSD para achar que a matriz sociológica conservadora é nela dominante, e curiosamente não vai a combate…

 

A minha tese é que seria mais sensato que os dirigentes partidários da direita passassem a gostar mais dos seus eleitores e com isso a falarem para o que eles querem e não para o que acham que os eleitores devem querer. Talvez isso reduza a abstenção.

 

Se isso acontecer, será ainda mais evidente que o PSD é um partido tendencialmente social e de centro-direita e o CDS é um partido tendencialmente conservador e de direita. Agora chegam ao mercado um partido que será provavelmente de direita radical ou extrema, populista e antissistémico (o Chega) e um partido (Iniciativa Liberal) que pretende ocupar o espaço liberal que desde 1974 não foi ocupado (a ponto de alguns politólogos, sabe Deus a razão, acharem que não tem hipótese em Portugal).

 

A história da direita em Portugal foi sempre a da ilusão dos "liberais" em conquistarem o PSD e/ou o CDS e, não o conseguindo, acabarem irrelevantes. O meu querido e saudoso amigo Francisco Lucas Pires, quer no CDS quer depois no PSD, é um "óbvio ululante" exemplo desta minha tese. Ele foi o mais liberal dos políticos portugueses. E, curiosamente, um dos mais populares no seu tempo… antes de aceitar o presente envenenado de Amaro da Costa para passar a vice-presidente do CDS e ser "normalizado".

 

Gostaria que o mesmo não acontecesse a Adolfo Mesquita Nunes, a António Pires de Lima e a muitos outros que no CDS e PSD se sentiriam melhor com eles do que com Rui Rio ou Xicão.

 

Claro que posso estar errado e, no início de 2020, os liberais de cada um dos partidos ganharem aos outros. Pode ser. Mas servirá para alguma coisa?

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