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Edson Athayde 05 de Agosto de 2020 às 09:20

Entre tapas e beijos

É assustador pensar que basta um maluco armado com um smartphone e algum poder de persuasão para que assassinatos sejam cometidos, governos sejam eleitos ou caiam. Por onde estreia, “Rede de Ódios” causa sensação.

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1. Não foi sempre assim, agora é: a grande diferença entre a realidade e a ficção é que a ficção tem limites. É o que constatamos ao assistir à longa polonesa “Rede de Ódios” (“The Hater”). Trata-se de um manual bastante claro sobre como é possível usar as redes sociais para raptar uma democracia. No caso, vemos um jovem sociopata que trabalha numa agência de gestão de conteúdos digitais e que usa as ferramentas que tem às mãos para interferir nos destinos do seu país. Pelo meio comete vários tipos de crimes comuns, mas é na dimensão política que a coisa choca. É assustador pensar que basta um maluco armado com um smartphone e algum poder de persuasão para que assassinatos sejam cometidos, governos sejam eleitos ou caiam. Por onde estreia, “Rede de Ódios” causa sensação. Na Polónia, soou como uma radiografia do extremismo político local que galvaniza-se dia a dia. No Brasil, remeteu ao conceito de “gabinete do ódio”, o nome dado a uma estrutura não oficial, comandada por um dos filhos de Bolsonaro, responsável por criar fake news e destruir reputações. Por cá, deveria ser visto como um aviso. O ovo da serpente não deixará de rebentar só por ignorarmos a sua existência.

2. “Lacrar” é um neologismo brasileiro para significar uma determinada forma de se encerrar uma discussão com uma frase de efeito, supostamente irrebatível. Quando alguém encerra um debate sobre aborto a dizer para um homem que ele não tem o direito de opinar sobre o tema pois só as mulheres têm lugar de fala na questão, trata-se de um caso claro de “lacração”. Num mundo ideal, todos têm o direito de expressar suas opiniões (que deveriam ser sinceras e construtivas). Mas não se engane, se “lacrar” é um verbo muito exercitado pela esquerda identitária, não quer dizer que seja um exclusivo desta. Há quem goste de “lacrar” em qualquer quadrante ideológico. E por qualquer motivo.

Na semana passada, no Brasil, houve um interessante caso de “lacrações” variadas a propósito de uma campanha publicitária. Uma das maiores empresas de cosméticos do planeta, a Natura (que recém-comprou a Avon mundial, depois de ter adquirido também a BodyShop) avisou ter contratado um homem transgénero famoso para participar da sua promoção do Dia do Pai (comemorado lá no segundo domingo de agosto). A Natura quis dizer com isso que é uma marca moderna, inclusiva, que respeita todos os tipos de família. Sim, por mais honesta que seja a ação, não deixa de ser uma forma de “lacração”.

A direita brasileira mais conservadora ficou fula. Tolerância é uma palavra que ela riscou do dicionário que usa. Mobilizada, usou do jargão “quem lacra não lucra” para alimentar um boicote à marca. Com isso conseguiu algo brilhante: uma tremenda valorização bolsista da Natura. A empresa não só lacrou, como lucrou milhões.

Trago este caso como um complemento perfeito à tese do filme “Rede de Ódios”. A Natura só pôde sair bem dessa história por ter contado com um contra-ataque (espontâneo ou financiado, não tenho como precisar, mas julgo que uma mistura das duas coisas) via redes sociais. O que a direita quis fazer serviu de trampolim para que a Natura pudesse surgir como uma vítima (até porque era). E assim, a campanha está a ser veiculada sem que haja notícias de pais de família a mudar de sexo por ver o anúncio. Entre tapas e beijos todos vão sobreviver. Até a próxima treta.

Ou como diria o meu Tio Olavo, a citar Herman Hesse: “Se odeia alguém, é porque odeia alguma coisa nele que faz parte de si. O que não faz parte de nós não nos perturba.” 

 

Há quem goste de “lacrar” em qualquer quadrante ideológico. E por qualquer motivo.

 

Mobilizada, usou do jargão “quem lacra não lucra” para alimentar um boicote à marca.
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