Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 19 de junho de 2018 às 20:05

Tribunais e o desprezo pelo nosso tempo  

Invariavelmente as testemunhas são todas convocadas para a mesma hora, no mais escandaloso "overbooking". Aqui, o tempo do cidadão não vale nada.

Se os tribunais fossem consultórios, estavam vazios. Se fossem companhias de aviação, já tinham deixado de voar. E, é claro, se os juízes fossem médicos ou advogados, não lhes sobrava um cliente. Por outras palavras, caso existisse concorrência na Justiça, a Justiça do Estado abria falência, porque escolhíamos quem nos tratasse com mais consideração.

 

Mas não há porta ao lado. E eles sabem disso. Seguros de que não temos muito por onde protestar, mantêm os abusos década após década. Como, por exemplo, a forma displicente com que tratam o nosso tempo, como se não valesse absolutamente nada. Para quem não é frequentador habitual deste mundo é uma revelação chocante, e para quem é representa maus-tratos constantes, objetivamente sem Livro de Reclamações.

 

A notificação é sempre muito clara: é favor apresentar-se às nove da manhã do dia tal, no juízo indicado. Deixam claro que caso a intimação não seja cumprida, seremos penalizados com multas e coimas e  ameaças dissuasoras do género. E por isso, mas também por educação e respeito para quem ordena a sua presença, o convocado comparece a horas, venha de perto ou de longe, a pé ou de avião. Mas salvo honrosas exceções, quando chega constata com estupefação que estão marcadas muitas outras pessoas para a mesma hora, naquilo que em qualquer outro lugar seria "overbooking". Não é preciso muito para perceber imediatamente que nunca poderão ser ouvidas todas à hora marcada, nem tão-pouco da parte da manhã, muito provavelmente nem naquele dia, mas ninguém de direito parece minimamente preocupado com o assunto.

 

Caso o convocado argumente que "tem emprego", compromissos, filhos para ir buscar à escola, ou apenas mais que fazer, é olhado com a mais absoluta desconfiança pelo oficial de diligências, como se basicamente não passasse de um terrorista encapotado, capaz de cuspir na bandeira. Porque a Justiça é a Justiça, e o cidadão deve estar disponível para aquilo que a Justiça entender. Aliás, nem entendem a preocupação, já que existe o papelinho da justificação, que obriga o patrão a pagar-lhe o tempo que os outros desperdiçaram. Obviamente, argumentar que trabalha por conta própria, ou que não quer tratar quem depende de si com o desprezo com que é tratado, não leva a lado nenhum.

 

É por isso que uma frase do tipo "Desculpe, mas já são onze e meia da manhã, ainda estão cinco pessoas à minha frente, parece-lhe que posso ir ao escritório e voltar às duas horas?" é recebida com incredulidade. "E se entretanto o senhor juiz entender que afinal o quer ouvir antes?", exclamam. Ah, pois claro. Por muitos destes lugares, à exceção do horário do almoço que é para cumprir a rigor, tudo o resto é imprevisível.

 

Enquanto isto o convívio entre testemunhas é animado, trocam-se e corrigem-se histórias, implantam-se memórias, e as partes contrárias têm sempre a possibilidade de trocar insultos no corredor, ou de se intimidarem mutuamente.

 

A cereja no topo do bolo, no entanto, pode estar reservada para o final. Se não for despachado com um "Há de ser convocado para nova data", e alguém se digna por fim a ouvi-lo, nada garante que não seja interrompido às primeiras palavras por um magistrado arrogante e maldisposto, também os há, que o silencia com um "Mas veio cá para me fazer perder tempo?"

 

Moral da história? Esse é o drama, não há.

 

Jornalista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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