João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 18 de março de 2019 às 21:10

Oh Santa Inquisição, acende as chamas!

O australiano, assombrado pelas grandes batalhas entre hostes cristãs e muçulmanas, ergue-se em defesa do mundo branco em vias de ser submergido pelas hordas de Alá e sacrifica-se em pose heroica na litania divulgada antes de atacar as mesquitas de Christchurch.

"A minha identidade é europeia e, mais importante, o meu sangue é europeu", proclama Brenton Tarrant e, com esta insana declaração, o terrorista australiano exige honra e respeito no vetusto, camaleónico e omnipresente universo racista.

 

À imagem de Anders Breivik, o assassino de Christchurch exarou manifesto contra a ameaça apocalíptica muçulmana e tal como o norueguês pretende aproveitar-se do tribunal para exaltação e exemplo na cruzada pela defesa do "homem branco".

 

O australiano, assombrado pelas grandes batalhas entre hostes cristãs e muçulmanas, ergue-se em defesa do mundo branco em vias de ser submergido pelas hordas de Alá e sacrifica-se em pose heroica na litania divulgada antes de atacar as mesquitas de Christchurch.

 

O inspirador norueguês dizia ser o redentor de uma nova Ordem do Templo, elite capaz de suportar o insuportável, como advogara Heinrich Himmler para os seus SS. 

 

Tarrant, por seu turno, admite que penará na prisão para, quiçá um dia, ser galardoado com o Nobel da Paz e vale-se do cativeiro de Nelson Mandela para suas quimeras.

 

De facto, é um igual de Dylann Roof, o racista branco que massacrou nove negros na Igreja de Charleston, na Carolina do Sul, em Junho de 2015.

 

Breivik, pretensa vítima da "tirania islâmica e multiculturalista", tentou fazer do tribunal uma plataforma de propaganda, mas falhou no confronto entre o delírio ideológico e a evidência do massacre.

 

O réu, testemunhas de defesa e acusação, psiquiatras, advogados e procuradores fizeram-se ouvir durante 43 dias no tribunal de Oslo.

 

No final de Agosto de 2012 Breivik foi condenado a cumprir pena de prisão até máximo de 21 anos.

 

O julgamento do terrorista que matara 77 pessoas em Oslo e na ilha de Otøya a 22 de Julho de 2011 realizou-se em estrita legalidade e poderá servir de exemplo para a justiça neozelandesa.  

 

Homogeneidade da nação, pureza de sangue, grandeza da raça - é trilogia do racismo branco ainda que sirva qualquer xenofobia e, por isso, é patente igualmente na Coreia do Norte, um dos destinos das errâncias do terrorista australiano.

 

O australiano revolta-se contra "a grande mudança" em que multidões muçulmanas ocuparão o mundo que o branco criou, paranoia muito acentuada em grupos racistas brancos de extrema-direita da Austrália.

 

 "Le Grand Remplacement" é, contudo, expressão retomada recentemente do jargão racista gaulês pelo publicista francês de extrema-direita Renaud Camus.

 

Assim se transmuta, passado um século, o anti-semitismo de Maurice Barrès, em tiradas contra a emigração muçulmana da África e do Magreb manobrada por "elites mundialistas". 

 

Os Templários, a tradição e mitologia das armas na cruzada contra muçulmanos, perpassam, sem surpresa, nas fantasmagorias do australiano e o ricochete de atentados de terroristas em nome de Alá será tão inevitável quanto a exige a jihad, a reconquista de Al Andalus, a instauração do Califado.

 

Madre Inquisição

 

Dos antípodas a Tomar são omnipresentes estes maniqueísmos ideológicos totalitários e as tradições alimentam-se das suas terras sagradas.

 

Pregador do autoritarismo corporativo monárquico, católico e racista impenitente, António Sardinha é presença constante desde as primeiras décadas do século XX nesse mundo de desvario que se soletra em português.

 

Os poemas em que o ideólogo do integralismo lusitano dizia verter "meu ódio de cristão, de português" contra judeus, mouros, ciganos, são respigados sem que se lhes dê atenção, até um dia...

 

As tiradas do homem de Monforte andam por aí nos tugúrios e palacetes dos sicários da extrema-direita:  

 

 

"São moiros e ciganos

quem governa.

Nunca será bastante a pena eterna pr'a quem desfez

a raça com torpeza! 

Oh Santa Inquisição, acende as chamas! 

E no fulgor terrível

que derramas,

Vem acudir à Pátria Portuguesa!"

 

Artigo está em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

pub

Marketing Automation certified by E-GOI