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João Carlos Barradas 23 de Setembro de 2015 às 00:01

Os vigaristas

Há um potencial vigarista a cada esquina apostado em explorar em proveito próprio as fraquezas alheias e esta é uma realidade incontornável da economia concorrencial capitalista, a crer no que a Volkswagen e dois Nobel da Economia acabam de demonstrar.  

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Martin Winterkorn - tal como Ricardo Espírito Santo, um cultor do pormenor e da gestão centralizada - acabou enleado na própria fraude, enquanto a Volkswagen nos Estados Unidos tentou iludir, durante mais de um ano, as suspeitas do Departamento de Protecção do Ambiente.

 

Aventar informação errónea ou fraudulenta é, por sinal, uma das típicas estratégias concorrenciais referenciadas pelos Nobel da Economia, George Akerlof (2001) e Robert  Schiller (2013), no recente livro "Enganar os Tolos", um estudo sobre "manipulação e engano".

 

Uma economia de mercado não se reduz à folia de tramóias, tem equilíbrios instáveis de oferta e procura, mas sem regulação concertada na compita, segundo regras democráticas, de interesses contraditórios dá azo à proliferação de arroubos especulativos, asseveram Schiller e Akerlof. 

                            

A artimanha

 

Um artimanha informática para falsificar dados sobre emissões poluentes de veículos a diesel e aumentar vendas no mercado norte-americano dominado pela Ford, Toyota e General Motors justificou a fraude Volkswagen desde 2009, segundo admite a empresa de Wolfsburg.  

 

A fraude vai, contudo, além das 482 mil unidades vendidas nos Estados Unidos, tendo idênticos dispositivos sido instalados em 11 milhões de veículos a diesel, de acordo com a Volkswagen.

 

Inquéritos anunciados da Europa à Austrália vão não só afectar a Volkswagen e demais empresas alemãs, como a Daimler ou BMW, mas, também, prejudicar fortemente as vendas do segmento de veículos a diesel na Europa e nos Estados Unidos.

 

Baixar custos de produção e manutenção na filtragem de poluentes, promovendo, simultaneamente, uma falsa imagem de veículos "amigos do ambiente" e económicos, apesar do preço superior do diesel nos Estados Unidos em relação à Europa, alimentaram a vigarice e convém chamar as coisas pelos seus nomes.

   

A hierarquia

 

A primeira tentação é equiparar o escândalo Volkswagen às manipulações da taxa LIBOR, onde proventos ilícitos individuais propiciavam a escalada fraudulenta, mas no caso da empresa alemã os indícios apontam para uma estratégia aprovada ao mais alto nível em que o provento financeiro pessoal imediato aparenta ser secundário.

 

Faz sentido dado que optimizar lucro ou divisar forma excepcional de ganhar quota de mercado ou gerar novas receitas é, de acordo com Akerlof e Schiller, próprio de uma economia capitalista, gerando equilíbrios de mercado peculiares.

 

Tal propensão é identificável, também, em sistemas não-capitalistas, mas o que está em causa para os economistas norte-americanos é, essencialmente, a presença em mercado, livre de interferências arbitrárias de poderes políticos, de agentes com capacidades de persuasão, negociação e cabedal de conhecimentos díspares.  

 

Traduza-se

 

Os dois Nobel interessam-se especialmente pelos mercados financeiros dada a sua volatibilidade e volume de transacções, traduzidas em ganhos e perdas espectaculares em função de dados económicos, políticos ou contabilísticos passíveis de manipulação.

 

Das expectativas de ganho sugeridas ou induzidas por certos agentes no mercado à apreciação sóbria, ingénua ou deficiente dos demais interessados - compradores, reguladores, cooperantes ou concorrentes - é ampla a gama de alternativas de compra, venda, investimento  e regulação que, por definição, deixam margem para a vigarice.  

 

O livro "Phishing for Fools: the economics of manipulation and deception" foi lançado este mês pela Princeton University Press.

 

Jornalista

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