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Jorge Fonseca de Almeida 23 de Junho de 2020 às 16:30

Apagar a História? Nunca!

Fica claro que ninguém ao exigir a retirada de estátuas pretende apagar o que quer que seja e muito menos crimes contra a Humanidade. O que se quer é que eles não sejam enaltecidos mas pelo contrário condenados.

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A propósito da retirada de estátuas de esclavagistas alguns, felizmente muito poucos, acusaram-me de querer apagar a História. Obviamente atacam e agitam moinhos de vento como Dom Quixote o fez sem sucesso mas antes caindo no mais profundo ridículo.

 

Alguns exemplos. Os alemães não têm estátuas a celebrar Hitler nem o regime nazi, mas têm monumentos que lembram as vítimas, estudam na escola os horrores provocados pelo fascismo e não há nenhum que não conheça essa parte da História alemã. Nada foi apagado, antes contado e recordado como deve ser. Também na Itália não existem estátuas de Mussolini, mas existem monumentos que celebram os que se bateram contra o regime fascista e na escola os italianos aprendem o que foi esse regime malfadado.

 

Eu não quero estátuas a esclavagistas mas não quero que os seus nomes sejam esquecidos e que o mal que fizeram perdoado ou apagado. Pelo contrário quero que seja lembrado e ensinado pelo que deveras foi: um crime contra a humanidade. A escravização de pessoas nunca foi aceitável. Cristo condenou-a. Os apóstolos condenaram-na. Sempre existiram pessoas de bem que se opuseram a tais práticas criminosas. Incluindo, naturalmente, portugueses. Esses é que merecem as estátuas. Pela sua luta corajosa.

 

Também as vítimas merecem ter os seus monumentos que nos lembrem a todos o seu sofrimento, os seus tormentos, a sua morte lenta para que alguns pudessem obter ilegítimos ganhos económicos.

A nossa história costuma ser contada do ponto de vista dos esclavagistas. É um ponto de vista inaceitável. É tempo de ser contada de outro ponto de vista menos enviesado, desculpador e perpetuador de injustiças.

 

Por isso, na verdade, vos digo, não queremos esquecer ou apagar nada. Não queremos glorificar ou celebrar crimes ou enaltecer esclavagistas honrando a sua memória com estátuas. Mas não os queremos apagar ou esquecer. Queremos apenas julga-los à luz do que se sabia na época em que viveram, isto é que não era moralmente aceitável escravizar outras pessoas para obter lucros pessoais. Muitos anos antes de qualquer deles nascer Cristo condenara a escravização de pessoas, pregando serem todos os homens (e, obviamente, as mulheres) irmãos. Estes esclavagistas diziam-se cristãos e alguns eram até padres. Sabiam, pois, o que estavam a fazer.

 

Por outro lado os lucros da escravização de pessoas reverteram para um grupo reduzido de pessoas que o dissipou em gastos sumptuosos. E mesmo no auge da escravização de pessoas a maioria da população portuguesa vivia na miséria, era analfabeta e o país encontrava-se entre os mais atrasados da Europa.

 

Reescrever a História? Naturalmente. Sempre que ela estiver mal contada. No tempo de Hitler a História ensinada aos alemães estava errada, falava de uma falsa superioridade e de uma ainda mais falsa inferioridade de outros povos (incluindo o português). Foi necessário reescrever a História alemã para a aproximar da Verdade. A nossa História também precisa de ser revisitada. Muito em especial no que toca à escravização de pessoas, ao colonialismo, e à imagem de superioridade em relação a outros povos. É mesmo urgente que o seja.

 

Fica claro que ninguém ao exigir a retirada de estátuas pretende apagar o que quer que seja e muito menos crimes contra a Humanidade. O que se quer é que eles não sejam enaltecidos mas pelo contrário condenados. Não só à luz do que sabemos hoje mas também do que já se sabia na época. Queremos que as lições do passado sejam um estímulo para a construção de uma sociedade diversa e que contribuam para a igualdade e não para perpetuar opressões, estereótipos e o racismo.

 

Fica, então, claro. Apagar a História? Nunca.

 

Economista

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