Jorge Fonseca de Almeida
Jorge Fonseca de Almeida 12 de fevereiro de 2019 às 19:51

Quarta revolução industrial

Tão grande dívida tolhe o investimento, prende a sociedade a um modelo económico do passado, impede o investimento no futuro. É a altura de a renegociar.

A primeira revolução industrial assentou no carvão como energia primária e na máquina a vapor como tecnologia base que permitiu mecanizar muitas indústrias, mover locomotivas e criar o comboio e o barco a vapor. A segunda revolução industrial construiu-se sobre o petróleo e a eletricidade por ele gerada, o carro, a autoestrada, o avião, foram indústrias de ponta. A terceira revolução industrial, ainda em curso, levou à automação da produção com base no digital, na ligação entre processos, no fluxo instantâneo de informação, nas telecomunicações e na conexão universal. Os computadores, os telemóveis, os cabos de fibra ótica são indústrias destes tempos.

 

Portugal entrou atrasado em todas estas revoluções tecnológicas, preso a um conservadorismo atávico, a uma recusa do moderno e do novo. Hoje o perfil de Portugal com as suas montadoras de automóveis, os têxteis e o calçado como indústria, com o turismo e os "call centres" como serviços, apresenta um perfil próximo da segunda revolução industrial quando já estamos na reta final da terceira.

 

É certo que aqui e ali mechem projetos melhor ou pior sucedidos próprios da revolução digital, mas são basicamente exceções, andorinhas isoladas que não fazem a primavera.

 

A quarta revolução industrial que aí vem estende-se por um vasto leque de tecnologias que começam a unificar-se, a relacionar-se e a ganhar corpo. A esta revolução também corresponderá uma nova energia, tema que ainda está em aberto, num momento em que os hidrocarbonetos parecem condenados pela poluição que causam e pelos danos que provocam na natureza e no clima, mas em que ainda não existe uma alternativa suficientemente abundante, segura e barata para os substituir.

 

A quarta revolução passa por áreas tão díspares como os carros sem condutor, as nanotecnologias, a robótica, as impressões a três dimensões, a inteligência artificial, as neuro tecnologias, as novas terapias de prolongamento da vida, a internet das coisas, a internet dos sistemas, etc. Todas já aí estão, umas já a sair da infância prestes a explodir nos mercados e a alterar radicalmente o panorama tecnológico atual.

 

Segundo o Professor Klaus Schwab, fundador e presidente executivo do World Economic Forum, esta quarta etapa da revolução industrial caracteriza-se por tecnologias que fundem os mundos físico, biológico e digital.

 

A quarta revolução industrial foi, este ano de 2019, um dos temas principais que as elites mundiais discutiram em Davos. Aí concluíram que um dos grandes perigos destes novos avanços é a segregação dos mercados de trabalho em dois grandes grupos: os das "baixas qualificações/baixos salários" e os das "altas qualificações/altos salários".

 

Para se aceder ao segundo grupo as empresas devem investir fortemente nas novas tecnologias e arriscar nas novas áreas do futuro. O risco é grande, pelo que a participação pública é essencial. Nos Estados Unidos através dos fundos para a Defesa, noutros através de investimento público, e noutros ainda através de parcerias entre os dois setores. Em nenhum apenas através do setor privado.

 

Mas isso só será exequível em Portugal quando for possível canalizar para a educação e o investimento em setores de ponta as colossais somas hoje destinadas ao pagamento da gigantesca dívida pública que se apagou das notícias mas que permanece como grande sorvedouro improdutivo dos impostos dos portugueses. Tão grande dívida tolhe o investimento, prende a sociedade a um modelo económico do passado, impede o investimento no futuro. É a altura de a renegociar.

 

Sem esse investimento crítico Portugal arrisca-se a permanecer mais um ciclo de várias gerações como um país de "baixas qualificações/baixos salários", um país de forte emigração, um país cada vez menos atrativo para os mais qualificados.

 

É tempo de encarar o que se passa no mundo e pensar como nos queremos encaixar nesse movimento de progresso científico e tecnológico que já está em movimento.

 

Economista
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