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Jorge Fonseca de Almeida 14 de Julho de 2020 às 16:39

Racismo e o declínio municipal do PCF

Na verdade a partir dos anos oitenta o PCF veio dizer que a percentagem de imigrantes em alguns municípios era excessiva, propondo a sua expulsão e recolocação noutras áreas.

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O Partido Comunista Francês (PCF) sofreu mais um revés nas eleições municipais do passado dia 28 de junho. Perde mais algumas câmaras nomeadamente na zona metropolitana de Paris e no Vale do Marna também perto da capital, áreas em tempos consideradas bastiões vermelhos.

 

Em Saint-Denis, Champigny-sur-Marne, Choisy-le-Roy, Aubervilliers, entre outras municipalidades o PCF deixa a presidência da câmara a favor de adversários políticos diretos quer de direita quer de esquerda. A Câmara de Aubervilliers era PCF desde 1945. Ao todo foram 27 câmaras de mais de 3.500 habitantes perdidas. É certo que também foram ganhas outras mas em menor número. No Vale do Marna o PCF, outrora dominante, tem agora somente quatro câmaras.

 

As propostas anti-emigração, as declarações racistas de alguns militantes importantes são uma das causas desta derrota eleitoral. Outra encontra-se nas posições conservadoras nos temas de ecologia.

 

Na verdade a partir dos anos oitenta o PCF veio dizer que a percentagem de imigrantes em alguns municípios era excessiva, propondo a sua expulsão e recolocação noutras áreas – a expressão usada era "repartição equilibrada". Também confessaram abertamente que, nesse sentido, os seus eleitos tinham vindo a promover a limitação do acesso de imigrantes à habitação municipal. Ficou conhecido o caso do presidente da Câmara de Vitry-sur-Seine, ele próprio filho de imigrantes, que mandou demolir um conjunto habitacional municipal novo para aí não ter de alojar 200 famílias imigrantes do Mali. Felizmente foi impedido pela Justiça de levar à prática a sua intensão.

 

Naturalmente que esta política abertamente agressiva também afeta os portugueses que para todos os efeitos práticos são também imigrantes em França.

 

O PCF de então para cá alterou o seu discurso, mas não alterou radicalmente a sua prática. Recentemente, pouco antes das eleições municipais, houve uma manifestação antirracista contra o presidente da Câmara comunista de Saint-Denis. Manifestação que muito contribuiu para a derrota eleitoral do PCF nesse município.

 

Em contrapartida uma das mais importantes Câmaras ganhas pelo PCF foi a de Bobigny, média circunscrição de 53 mil habitantes, em que o cabeça de lista foi Abdel Sadi, um francês, independente de esquerda e orgulhoso da sua herança cultural norte-africana. Duas atuações distintas, dois resultados eleitorais contrários.

 

Na origem deste declínio a errada perceção da composição étnica atual da classe operária francesa, base eleitoral privilegiada do PCF, e do papel do racismo na sociedade capitalista contemporânea. Um caso de estudo para outros declínios anunciados mas evitáveis.

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