Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Luís Todo Bom 15 de Julho de 2020 às 20:20

O sistema aeroportuário

Nunca entendi a razão pela qual o actual Governo decidiu deter 50% do capital da TAP, quando podia garantir o mesmo resultado, de ter uma palavra decisória no âmbito da estratégia da empresa, com uma minoria de bloqueio, de 33,4% e um acordo parassocial equilibrado.

  • Assine já 1€/1 mês
  • 1
  • ...

A teoria dos sistemas é ensinada, no nosso país, em poucas universidades e em poucos cursos, razão pela qual a aproximação sistémica, no processo de análise e decisão de projectos ou situações complexas, é raramente usada.

Esta limitação do nosso sistema educativo formal é particularmente relevante, já que a grande maioria das decisões integradas exigem uma análise sistémica, que, quando não ocorre, conduz a decisões não óptimas.

A grande diferença entre uma aproximação sistémica e uma aproximação analítica reside não só no processo de abordagem ao problema em causa, mas sobretudo no algoritmo decisório, em que no primeiro caso se optimiza a interacção entre os sistemas em análise e, no segundo, se optimiza cada um dos sistemas, isoladamente.

Uma das situações, em que a aproximação sistémica devia ser mandatória, para as decisões estratégicas a tomar, é o caso do sistema aeroportuário, que integra um conjunto alargado de subsistemas, em particular, as companhias de aviação, os aeroportos e todos os subsistemas logísticos necessários, para que o sistema global funcione de forma eficiente.

A ausência desta aproximação tem estado na origem dum conjunto de situações de ineficiência, no âmbito da logística, com especial relevância para o subsistema de abastecimento de combustível.

Mas a questão mais relevante diz respeito à relação entre os subsistemas aeroporto e companhias de aviação, em que temos assistido a acusações mútuas de responsabilização pelas ineficiências de cada subsistema, e a uma discussão, tecnicamente frágil, sobre os programas de expansão e de crescimento de cada um destes subsistemas.

Nunca entendi a razão pela qual o actual Governo decidiu deter 50% do capital da TAP, quando podia garantir o mesmo resultado, de ter uma palavra decisória no âmbito da estratégia da empresa, com uma minoria de bloqueio, de 33,4% e um acordo parassocial equilibrado, e não se preocupou em deter, do mesmo modo, e com os mesmos objectivos, uma minoria de bloqueio, de 33,4%, na ANA, também com um acordo parassocial equilibrado, abdicando de ter uma palavra decisória relevante na estratégia aeroportuária nacional.

Beneficiando, neste caso, inclusive, da política de distribuição generosa de dividendos, da ANA.

Só nesta situação é que o Governo estaria em condições de adoptar uma aproximação sistémica no processo de crescimento e desenvolvimento destas duas empresas, melhorando o posicionamento competitivo do nosso país.

No momento em que está em avaliação a intervenção do Estado na TAP, vale a pena revisitar o sistema aeroportuário nacional, preparando-se, para além duma análise custo-benefício para as várias entidades envolvidas, uma análise sistémica integrada.

Só uma aproximação estruturada e tecnicamente rigorosa pode evitar o ruído que se tem verificado e se manterá, em relação às decisões governamentais associadas a este sistema.

O país, atento e preocupado, agradecerá.

Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias