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Opinião
Manuel Falcão 03 de Janeiro de 2020 às 10:21

O estado da nação

As duas primeiras décadas deste século são um somatório de oportunidades perdidas para Portugal.

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Back to basics
"Experiência não é o que acontece a cada um de nós, é aquilo que fazemos com o que nos acontece."
Aldous Huxley

O estado da nação
As duas primeiras décadas deste século são um somatório de oportunidades perdidas para Portugal. Não houve reformas estruturais e as poucas mudanças que se fizeram acabaram por ser em boa parte revertidas. A presença de portugueses em cargos internacionais de relevo, ao longo destas duas décadas, é inversa em relação às melhorias e aos progressos verificados no país. Foram duas décadas de degradação do sistema político, do surgimento de numerosos casos de corrupção de várias dimensões, de descrédito do Parlamento e dos partidos do sistema. Foram anos de aperto, de destruição de valor, de colapso de instituições financeiras, de degradação dos serviços públicos. A responsabilidade de tudo isto é repartida pelos partidos que estiveram no Governo, sem excepção. Continuámos a ver as promessas eleitorais serem desmentidas na prática logo a seguir à contagem dos votos. O sistema deixou de usar a confiança como moeda de troca. A justiça é uma miragem. Os cidadãos pagam mais ao Estado e recebem menos. Os eleitores afastam-se, cada vez em maior número, dos processos eleitorais. Os governantes são eleitos por uma minoria. As grandes cidades estão a deixar de ter habitantes, trocados por visitantes. A especulação imobiliária instalou-se. Em Lisboa, o programa político da autarquia é afastar os lisboetas, tornar-lhes a vida difícil e deixar a sujidade e a porcaria invadir toda a cidade. Na primeira vintena de anos deste século, o progresso foi pouco e o retrocesso foi enorme. É este o estado da nação no início de uma nova década.

Semanada

O peso dos impostos e das contribuições sociais efetivas aumenta para 35% do PIB, segundo a proposta do Orçamento do Estado para 2020 em 2019, a cobrança fiscal bateu novo recorde, com o Fisco a arrecadar 5,2 milhões de euros por hora o défice do Serviço Nacional de Saúde aumentou 72 milhões de euros em 2019, a GNR deteve mais de 30 pessoas, só no Algarve, sob acusação de violência doméstica ainda em 2019, registaram-se 35 mortes em contexto de violência doméstica: 27 mulheres, uma criança e sete homens duplicaram as queixas de trabalhadoras por discriminação e a maioria dos processos são de mulheres empregadas em hipermercados e supermercados o crédito concedido este ano atingiu o maior valor desde o final de 2014 a avaliação bancária das habitações para a atribuição de crédito voltou a bater níveis máximos em novembro o número de reclamações em relação aos transportes públicos atingiu este ano um valor recorde, com a maior parte das queixas a incidir nos comboios e no metro de Lisboa uma em cada cinco queixas é sobre mau atendimento são registados quatro bebés por dia com pai incógnito o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, classificou a gestão das empresas portuguesas como de "fraquíssima qualidade", num discurso para portugueses que prosseguiram as carreiras académicas no estrangeiro.

Dixit
"Como é que um socialista consegue um excedente orçamental? - Aumenta os impostos. Quem paga o excedente? - Os contribuintes. E que faz um socialista com um excedente? - Alimenta a grande família socialista."
Vicente Ferreira da Silva

Renascimento
Uma boa ideia para começar o ano é visitar o Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, para ver a exposição sobre a obra de Alvaro Pirez d’Évora, o mais antigo pintor nascido em Portugal, e que trabalhou na região da Toscana, em Itália, entre 1410 e 1434. No retábulo da Igreja de Santa Croce de Fossabanda, próximo de Pisa, está uma das suas obras e, na assinatura, o autor diz-se oriundo de Évora. São conhecidas cerca de 50 pinturas da sua autoria e é reconhecida a qualidade plástica e a importância histórica da sua obra. Da exposição fazem parte pinturas conservadas em Portugal e ainda obras dos grandes pintores toscanos do seu tempo. Ao todo, são mostradas cerca de 85 peças, que permitem enquadrar o contexto cultural e artístico em que se desenvolveu a arte de Alvaro Pirez. Esta mostra, a mais completa realizada até hoje sobre este pintor, conta com empréstimos de grandes museus europeus e coleções privadas de referência, de Itália, França, Alemanha, Hungria e Polónia. A exposição é fruto de uma colaboração entre o Museu Nacional de Arte Antiga e o Polo Museale della Toscana, e testemunha as intensas relações da área mediterrânica nos alvores do Renascimento. Esta mostra da obra de Alvaro Pirez d’Évora fica até 15 de Março, na galeria das exposições temporárias do Museu Nacional de Arte Antiga, no piso zero.

Heranças
A Cereal é uma revista de "lifestyle", que se publica duas vezes por ano, e em cada edição visita um conjunto de destinos, publica entrevistas e artigos sobre design, moda e arte. A edição de Outono/Inverno é dedicada ao tema da herança, no sentido do legado, da tradição que passa de geração em geração. É uma edição quase intemporal - até a moda não tem data marcada. Rosa Park, a directora da publicação, escreve no texto de introdução que evocar o que nos é deixado "é procurar alcançar a imortalidade, vivendo as memórias daqueles que amámos". Nesta edição, explora-se a arquitectura de Gio Ponti num hotel intemporal em Sorrento e de Carlo Scarpa num túmulo desenhado em 1906. Pode ainda ver-se o trabalho desenvolvido para a Ruinart por Jonathan Anderson e um olhar sobre o estúdio onde Joan Miró trabalhava. Um dos melhores momentos é o portefólio fotográfico de Fan Ho que, com uma Rolleiflex, retratou a Hong Kong dos anos 50 do século passado. Esta Cereal dá destaque a João Rodrigues, o português que, com Manuel Aires Mateus, desenvolveu o projecto das Casas na Areia da Comporta, que esteve na Bienal de Veneza em 2008. Depois, também com Manuel Aires Mateus, vieram a Casa no Tempo, no Alentejo, e as Cabanas no Rio, também na Comporta, além do Hotel Santa Clara 1728, em Lisboa. Estes quatro projectos são enquadrados pela marca comum Silent Living, que procura combinar a tranquilidade de cada local com um acolhimento familiar. Não é a única presença portuguesa nesta edição da Cereal, que conta também com uma página de publicidade da marca Flanela Portuguesa.

Arco da velha
A Entidade da Transparência, criada há seis meses para fiscalizar as declarações de rendimentos de políticos e altos dirigentes da administração pública,
não tem dotação orçamental no novo Orçamento do Estado.

Hot Rats
Frank Zappa fez 62 álbuns em 52 anos de vida e, desde a sua morte, ocorrida em 1993, os seus herdeiros já lançaram quase mais seis dezenas de discos. O mais recente é a revisitação de The Hot Rats Session, em seis discos. Hot Rats foi o primeiro grande disco dos Mothers Of Invention, em 1969, e o álbum original tinha 43 minutos que oscilavam entre influências de jazz improvisado e o rock. Nas notas da fantástica capa, o próprio Frank Zappa chamava-lhe "um filme para os vossos ouvidos". Nesta nova edição estão sete horas e 19 minutos, que mostram o trabalho de Zappa e dos outros músicos ao longo das sessões de estúdio que levaram ao disco original. O seu talento de compositor ressalta e, nas gravações, pode sentir-se o génio a trabalhar, repetindo solos, improvisando, procurando o som pretendido e a melhor solução instrumental. Hot Rats, o título, vem - segundo o que Zappa contava - do que ele achava que soava um solo de Archie Shepp. Nesta recolha de conversas de estúdio (como no disco seis) e horas de ensaios, há a prova do experimentalismo, do sentido de aventura e de descoberta que sempre caracterizou a obra de Frank Zappa, com muito humor e provocação pelo meio. Esta nova edição não tem as sessões integrais, mas sim pedaços escolhidos que permitem compreender melhor como o disco original se tornou num clássico e a quantidade de trabalho que foi colocada no seu processo criativo. Frank Zappa, The Hot Rats Sessions, está disponível no Spotify.

Comidas
"O Homem Que Comia Tudo" é o blogue de Ricardo Dias Felner, um dos melhores sítios para se obter conselhos em matéria de novos restaurantes e de sugestões gastronómicas. Todos os anos, o blogue atribui os Prémios Cometa, acabados de revelar, e que podem ser consultados em ohomemquecomiatudo.com. Do texto introdutório à lista dos premiados, destaco este excerto: "Ainda falta um chef que meta todo o empenho e investimento na tarefa de fazer um restaurante moderno e ambicioso de cozinha regional portuguesa; ainda falta um Solar dos Presuntos actualizado, menos posh e menos vinha d’alhos, mas igualmente impecável no produto e no serviço." Há prémios para todos os gostos, desde o melhor fine-dining até ao melhor ramen ou comida italiana, passando pelo melhor amouse-bouche, melhores mexicano, chinês, coreano ou japonês do ano. E claro, o chef do ano, o balcão do ano, o snack-bar do ano, a entrada do ano, a sobremesa do ano e mais uma série de inesperadas categorias que vale a pena conhecer. Vão ao blogue, que vale a pena. Podem, a partir daí, constituir um roteiro para interessantes descobertas em matéria gastronómica.

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