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Opinião
Joaquim Aguiar 23 de Julho de 2020 às 09:45

Revisão da matéria dada

Mas a condição suficiente, que complementa a condição necessária, é penalizar os que escolhem o silêncio e a cumplicidade para não denunciarem o fim das ilusões.

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A FRASE...

 

"A acusação do Ministério Público devia encher de vergonha todos os que durante anos se renderam ao poder de Ricardo Salgado."

João Vieira Pereira, Expresso, 18 de Julho de 2020

 

A ANÁLISE...

 

Para os bons alunos, uma aula de revisão da matéria dada não promete novidades interessantes. Mas há matérias repetidas que iluminam o que antes estava apenas subentendido ou deliberadamente obscurecido. Uma década depois de uma crise económica que não se quis interpretar nas suas origens, nos seus mecanismos e nos seus responsáveis, as investigações do Ministério Público agora publicitadas e as sentenças já proferidas (e até agravadas em instância de recurso) são apenas revisões da matéria dada. Nem as investigações nem as sentenças revelam agora factos ou circunstâncias que não fossem conhecidos ou não pudessem ser deduzidos nos momentos em que ocorreram, o que implica que os lentos procedimentos da administração da justiça não substituem nem adiam a identificação das responsabilidades pelos silêncios e cumplicidades que ocultaram o que muitos não podiam deixar de saber - e que não podiam deixar de concluir que eram ilegalidades e crimes alimentadas por ilusões que chegavam ao fim. Se tivessem denunciado o que não podiam deixar de saber, não seria preciso esperar uma década para conhecer as acusações e muitas dessas ilusões que conduziram a ilegalidades e crimes não teriam acontecido.

 

Políticos e banqueiros trabalham com o dinheiro dos outros, uns extraindo os impostos da sociedade, outros aplicando os depósitos dos clientes. Se os primeiros não conseguem formular políticas de crescimento económico e políticas sociais que sejam financiadas sem terem de recorrer ao endividamento e se os segundos não conseguem gerar margem financeira sustentada no tempo, haverá sempre o risco do abraço de cumplicidade entre a dívida pública e a dívida privada, uma circularidade que é uma ilusão de desesperados.

 

Rever a matéria dada (da venda dos bens da Igreja, da bancarrota do liberalismo rotativista, da bancarrota da troika até à novidade que será a bancarrota da pandemia) é a condição necessária para escapar à condenação da eterna repetição do mesmo. Mas a condição suficiente, que complementa a condição necessária, é penalizar os que escolhem o silêncio e a cumplicidade para não denunciarem o fim das ilusões. 

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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