Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
João Carlos Barradas 20 de Julho de 2011 às 11:01

Murdoch e a crueldade

O vício e o saber apurou-os Rupert Murdoch na sua Austrália nativa, mas foi ao adquirir o "News of the World", em 1969, que o empresário começou a alargar ao vasto mundo numa teia de influências e interesses.

  • Assine já 1€/1 mês
  • 3
  • ...
"Logo que viu o sangue, bebeu simultaneamente a crueldade."

"Confissões", Livro VI
Agostinho, Bispo de Hipona

O vício e o saber apurou-os Rupert Murdoch na sua Austrália nativa, mas foi ao adquirir o "News of the World", em 1969, que o empresário começou a alargar ao vasto mundo numa teia de influências e interesses.

Nos tablóides Murdoch aprendeu uma lição para toda a vida."As paixões mais selvagens" - conforme Santo Agostinho constatara há muito - deleitam a plebe, arrebatam até os melhores, e, assim sendo, podem representar uma base sólida para financiar outros e melhores negócios de um empresário agressivamente inovador.

Os idos de Março

Nos idos de Março, chegado aos 80 anos, podia Murdoch contemplar um império mediático sob controlo familiar (38% dos direitos de voto), com perspectivas sólidas de expansão e um herdeiro presumível, seu filho James, de 38 anos, responsável pelas operações da "News Corporation" na Europa e na Ásia.

A vertente de oferta televisiva e de produção cinematográfica do conglomerado superava largamente o sector da imprensa que no último exercício contribuíra apenas para 13% dos lucros.

A opção preferencial pelo reforço do investimento na área televisiva e digital evidenciara-se, aliás, em Junho de 2010 por altura da oferta de aquisição da totalidade do capital da "British Sky Broad-casting" em que a "News Corporation" detinha 39% das acções.

Dos Estados Unidos à Austrália, passando pela Grã-Bretanha, títulos de qualidade - "The Wall Street Journal", "The Times", "The Australian" - revelavam-se, por sua vez, menos lucrativos do que o desejado ou, mesmo, deficitários.

No mais rentável universo tablóide um obscuro escândalo de escutas telefónicas no Reino Unido vinha sendo abafado desde 2006, essencialmente à custa de sucessivos acordos extrajudiciais.

De repente, e, não mais do que de repente

Tudo começou a ruir quando a 4 deste mês "The Guardian" conseguiu confirmar que as escutas telefónicas praticadas pelo "News of the World" tinham interferido na investigação policial do rapto e assassínio de uma rapariga de 13 anos em 2002.

O lado canalha do jornalismo britânico - escutas telefónicas ilegais ou compra de informações - tornou-se como que um exclusivo Murdoch, mas, de facto, faz décadas a que recorrem os plumitivos a tal velha e diversa malfeitoria.

"Deus me perdoe. Ser teu Tampax!"

"Seu parvalhão! Que ideia maravilhosa!". Disse ela a ele. Quedaram-se, assim, aconchegados e muito pertinho, em suas ânsias amorosas, o herdeiro do trono britânico e a amante, antes do divórcio real. Veio-se a saber no ano de 1993.

O "Tampax" fora o que maravilhara Camilla Parker-Bowles e o amante Carlos, Príncipe de Gales, muitos meses antes, em 1989, para gáudio da peble e por via da divulgação de uma conversa telefónica privada.

Não adveio mal de maior a um casamento irreparavelmente degradado na esfera pública, mas ficou por esclarecer a origem da gravação nos mundos do poder britânico. Anos passados, graças à compra de informação, por exemplo, "The Daily Telegraph" denunciou, em 2009, abusos de despesas por parte de membros do parlamento e, apesar de a informação (passível de verificação através de outras fontes) ter origem em denúncia anónima, o efeito político revelou-se devastador.

Muito diverso e demasiado igual

O drama dos Murdoch é diferente. Feita a rega e colhidos os frutos, contados políticos conservadores e trabalhistas devedores de favores a Murdoch, a degradação política é relativamente indiferente à direita e esquereda caso não cheguem a público outras provas de actos ilegais.

O actual primeiro-ministro é particularmente vulnerável, depois da contratação de Andy Coulson, ex-editor do "News of the World", em Julho de 2007, e a maior parte dos decisores políticos, incluindo trabalhistas, remetem-se à negação de óbvias conivências.

Rupert Murdoch, mestre sabedor, tudo nega e reafirma a implausível verdade ou não tivesse bebido a crueldade logo que viu o sangue. Imensamente iguais a si próprios Murdoch e os seus revêm-se na crueldade e naquilo que o destino possa vir a prover.

Jornalista
barradas.joaocarlos@gmail.com
Ver comentários
Saber mais Opinião João Carlos Barradas
Mais artigos de Opinião
Ver mais
Mais lidas
Outras Notícias