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Questões nucleares da energia

O petróleo é uma espécie de trovoada da economia mundial. Os políticos só se lembram dele quando eleva a voz e pede mais dinheiro, secando ao mesmo tempo as carteias dos eleitores.

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1. Petróleo, esse grande malandro!

O petróleo é uma espécie de trovoada da economia mundial. Os políticos só se lembram dele quando eleva a voz e pede mais dinheiro, secando ao mesmo tempo as carteias dos eleitores. E por estes dias, ao registar novos máximos e consolidando preços acima dos 70 dólares, o ouro negro, está de volta à agenda. Traçam-se cenários de catástrofe que passam pelo esgotamento das reservas, aumento do consumo da China e da Índia, e por tudo isso, prevê-se uma subida ainda mais vertiginosa dos preços.

Vamos aos factos: porque é que o maldito barril de 159 litros está cada vez mais caro? Em primeiro lugar a culpa não é dos especuladores. A verdade é que, de quando em vez, conjugam-se vários factores objectivos que provocam a subida do barril de petróleo. Desde logo o aumento sustentado da procura. E surpresa, a culpa não é (só) da China nem da Índia. De facto os norte-americanos estão também entre os principais responsável pelo acréscimo da procura. Senão vejamos, actualmente a maior economia do mundo, é também a maior consumidora de crude. Todos os dias são consumidos 20,5 milhões de barris. E este valor atingiu-se após um disparo do consumo em 500 mil barris por dia. Por seu lado a China (que consume actualmente 6,6 milhão de barris/dia) aumentou o consumo em 900 mil barris, mas a Índia apenas passou a importar mais 100 mil barris/dia, elevando o consumo para 2,5 milhões de barris.

Ou seja, a procura está a aumentar, mas não é a única culpada. A refinação e o transporte pesam também agora mais no preço final. Nas últimas décadas, fruto de uma pressão dos ambientalistas e da queda das margens de lucro, procedeu-se ao abate de navios de transporte e ao abandono de muitas refinarias. Consequência? Os preços subiram.

2. Portugal ainda tem tempo?

Juntamente com a questão preço, surge o problema da duração das reservas. Ou, numa abordagem tipicamente lusitana, «quantos anos é que ainda temos pela frente para encontrar uma solução?». A resposta não é animadora. Os especialistas dividem-se, mas 40 a 50 anos é, nas condições actuais de preço, tecnologia e consumo, o patamar mais apontado.

Uma linha no horizonte que se aproxima ainda mais, se considerarmos alguns factores próprios da nossa economia: elevada dependência petrolífera, baixa eficiência energética (metade da dinamarquesa), desequilíbrio energético face a Espanha, escassez de capacidade refinadora, limites impostos pelo Protocolo de Quioto (referentes a emissões de gases para a atmosfera), imposições da União Europeia relativamente à produção (produzir 39% da electricidade consumida a partir de fontes renováveis) e claro está, os custos suportados pela economia. É que por cada dólar de aumento na matéria-prima, o país entrega aos fornecedores mais 110 milhões de dólares. Mas apesar de tudo, Portugal ainda tem (de ter) tempo.

3. Chamem os consultores! Queremos uma solução

Habitualmente, não só face ao problema concreto da energia, mas perante a necessidade de resolver um qualquer problema a postura típica passa por uma estratégia que contém habitualmente dois pontos: encontra-se uma solução mágica e recusam-se todas as outras. Má notícia! Também aqui, não há soluções mágicas. O petróleo e o gás são caros e vão continuar a aumentar. O vento e a energia solar têm o seu lugar, mas ainda são fontes muito caras de produção de energia (eléctrica) e intermitentes. O carvão é altamente poluente. A energia nuclear não é solução para todos os problemas.

A resolução ao problema energético não passa portanto por uma única solução mas por um conjunto de respostas, fontes, opções, escalonadas no tempo: no imediato, a curto prazo e médio e longo prazo. No imediato tentando melhorar a eficiência energética no sector dos transportes. É que actualmente o petróleo é utilizado esmagadoramente neste sector. Melhorar a eficiência, reduzir as emissões. É possível retirar camiões das estradas (é a própria Antram que o garante) e melhorar a utilização dos transportes nas cidades.

No curto prazo, para além de medidas mais estruturais que visem melhorar a eficiência, o Governo tem de agilizar os processos de atribuição de licenças de produção de energia eólica, de modo a aumentar, no mínimo, em cerca de 2.500 megawatts de potência instalada até 2009, a que se juntam os 700 existentes. No mínimo, porque a meta é mais ambiciosa: até 2010 temos de alcançar os 4.200 megawatts de potência instalada.

4. Começar a trabalhar, já!

E depois, e ao mesmo tempo, é preciso e urgente pensar no médio e longo prazo. E aqui a solução passa indiscutivelmente pelo nuclear. O nuclear não é uma panaceia imediata, mas claramente é uma opção a médio e longo prazo. Não é um remédio imediato desde logo porque são precisos vários anos até ter uma central a funcionar. Mas também porque a electricidade (que representa cerca de um quarto da energia total consumida em Portugal) produzida por uma central não é para já alternativa ao petróleo. No imediato. Porque na verdade se o hidrogénio se implantar como energia no sector dos transportes, terá de ser produzido. E estando neste momento muito próxima a estabilização da tecnologia dos reactores nucleares (conhecidos como HTTR), concebidos para produzirem hidrogénio, então o cenário nuclear pode mudar. E neste caso uma central nuclear poderia ter um impacto importante na dependência petrolífera. Mas também na redução das emissões. Um estudo recente revela que as 600 centrais de carvão existentes nos EUA produzem 36% das emissões de CO2 do país, o equivalente a 300 milhões de automóveis, enquanto que as 103 centrais nucleares a operar no mesmo país evitaram uma poluição equivalente a 100 milhões de automóveis.

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