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Bernardo Rodo 09 de Abril de 2020 às 09:40

Sistemas de inteligência

A teoria é esta: se 100 postos de trabalho numa empresa passarem a 10, vão existir oito empresas concorrentes, financiadas pelo crescimento dos mercados onde a tecnologia se tornou acessível, ao mesmo tempo que novas tecnologias emergem para alimentar futuros mercados.

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Há cerca de três anos, o avião de longo alcance movido exclusivamente a energia solar, desenvolvido por Bertrand Piccard, completou a primeira circum-navegação. Desta experiência, Piccard retira a aprendizagem de que o céu não é o limite, mas sim o Homem. Frustrado pelo facto de não ter tido o apoio que julgava merecer, de governos e grandes corporações, criou a Solar Impulse Foundation. Na sua visão, a ecologia apenas será uma realidade se for abordada numa perspetiva de viabilidade económica. Mais ainda, não deve exigir esforço financeiro nem sacrifícios comportamentais.

A sua visão poderia ser facilmente demonstrada com argumentos de eficiência energética. Mas Piccard sugere uma abordagem mais pragmática: não é possível mudar o caráter das pessoas e os compromissos internacionais firmados entre nações têm pouco efeito no comportamento das populações. Alguns dos princípios que sugere consistem em não ameaçar a mobilidade e conforto das pessoas para defender a natureza e também em agir em função dos interesses das gerações atuais e não das futuras.

Este pressuposto é simples. A inovação tecnológica faz parte da natureza humana porque constitui soluções para problemas concretos, ao mesmo tempo que assegura a sua relevância nos sistemas de inteligência em que participa. Uma pá permite ao Homem cavar sem ter de utilizar as mãos. O seu lugar no sistema continua a existir, mas a função é diferente. O princípio subjacente é o de que tudo o que puder ser automatizado será, mas o Homem mantém a sua predominância sobre os sistemas.

Segundo esta abordagem otimista, os postos de trabalho extintos serão substituídos por outros, no pressuposto de que a humanidade, tendo como finalidade a sua própria subsistência, não vai permitir ser dominada pela máquina e conseguirá realizar-se pela via da criatividade e do pensamento, em oposição à força física e resistência à fadiga. A teoria é esta: se 100 postos de trabalho numa empresa passarem a 10, vão existir oito empresas concorrentes, financiadas pelo crescimento dos mercados onde a tecnologia se tornou acessível, ao mesmo tempo que novas tecnologias emergem para alimentar futuros mercados.

 

O princípio subjacente é o de que tudo o que puder ser automatizado será, mas o Homem mantém a sua predominância sobre os sistemas.



Neste cenário, caso não se concretizem estes novos mercados em perfeito equilíbrio concorrencial, grande parte da riqueza produzida não chega ao consumidor, deixando sem resposta a pergunta de Henry Ford de como podem os seus funcionários comprar os carros que produzem. A proposta de Andrew Yang (candidato às primárias do partido democrata norte-americano) de criar um subsídio de 1000 USD para cada americano visava colocar dinheiro de volta na economia, em parte taxando os gigantes, como Google e Amazon, que vão absorver mais empregos pela automatização.

Existe, contudo, um princípio aparentemente consensual de que uma economia para prosperar requer sacrifício do consumidor na valorização do seu rendimento disponível, que por sua vez disciplina as suas decisões de compra. Este princípio é ainda mais relevante num mundo de excessos, dominado pela abundância de estímulos ao consumo. Para resolver este problema, Andrew Yang sugere a criação de um sistema de intercâmbio de tarefas entre pessoas e até entre pessoas e empresas. Pretende com esta solução combater a apatia social e estimular a redistribuição de rendimento através do empreendedorismo individual. As suas propostas têm sido criticadas por estarem assentes em pressupostos irrealizáveis, mais adequados a projetos start-up do que a um programa político com as suas inúmeras repercussões económicas e sociais.

Retomando Piccard, o comum indivíduo não vai tomar decisões inspirado num futuro mítico e difuso. Pelo contrário, vai tentar assegurar a sua relevância nos sistemas de inteligência em que participa. É neste ponto que a intriga se adensa, pois o avanço da automatização passa precisamente pela ilusão criada no consumidor de que não participa ativamente nos sistemas, apenas nos seus benefícios. Apesar de afetar já muitas indústrias, a automatização ainda é vista como uma ameaça distante, que pode ser vencida com pragmatismo, otimismo e criatividade, mesmo que história recente se esteja a esforçar em demonstrar o contrário.

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