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Macron assume papel decisivo em eventual acordo pós-Brexit

Fontes britânicas e comunitárias disseram à Bloomberg que o presidente francês será determinante no processo de negociação de um acordo comercial entre o Reino Unido e a União Europeia. Dimensão interna da política gaulesa podem levar Macron a considerar mais vantajoso um cenário de não acordo.

Reuters
David Santiago dsantiago@negocios.pt 11 de Agosto de 2020 às 11:08
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Emmanuel Macron poderá ser o protagonista principal nos próximos meses de negociação de um acordo comercial entre a União Europeia e o Reino Unido.

De acordo as informações avançadas à Bloomberg por fontes comunitárias e britânicas, o presidente francês poderá vir a rejeitar os moldes de um potencial acordo entre as partes se considerar poder retirar maiores dividendos políticos ao inviabilizar um compromisso.

A questão central passa pelo dossier das pescas e em particular pelo nível de acesso que os Estados-membros da UE terão às águas britânicas, sendo que Londres mantém como ponto fulcral da sua agenda garantir a recuperação de soberania sobre os seus mares.

Este é um ponto especialmente sensível para os interesses da França, uma vez que uma redução significativa da atividade das embarcações comunitárias nas águas britânicas irá atingir especialmente o setor pesqueiro gaulês, o que não deixaria de se refletir nas possibilidade de reeleição de Emmanuel Macron nas presidenciais previstas para 2022.

Assim, a posição que Macron assumir relativamente a esta questão tenderá a determinar a capacidade de Bruxelas e Londres chegarem a acordo. Por outro lado, é certo que não existirá nenhum acordo comercial abrangente que não inclua o importante setor das pescas.

Se Macron mantinha níveis de popularidade baixos desde a revolta dos "coletes amarelos", a crise pandémica e o respetivo impacto económico não vierem ajuda as pretensões do chefe de Estado. E tendo em conta que a contestação social que esteve na origem dos "coletes amarelos" está muito assente no nível de desigualdades e nas crescente dificuldades sentidas por setores tradicionais, fazer frente a Londres nas pescas poderá resultar a favor de Macron.

"A UE continua a insistir em aceder às zonas de pesca do Reino Unido de uma forma que é incompatível com o nosso futuro estatuto enquanto Estado costeiro", disse à Bloomberg uma fonte oficial do governo britânico. Michel Barnier, que lidera a equipa negocial europeia, tem insistido ser inaceitável para a UE qualquer solução que implique uma "destruição parcial da indústria pesqueira da UE".

Do lado do Reino Unido, o executivo chefiado por Boris Johnson não abdica de assegurar total autonomia na gestão e acesso às suas águas, considerando este um dos fatores essenciais que resultam da vitória do Brexit no referendo popular realizado em 2016. Recorde-se que o setor pesqueiro britânico votou massivamente a favor da saída do Reino Unido do bloco europeu por considerar ter sido a pertença à União a causar as dificuldades do setor pesqueiro britânico.

As quatro fontes citadas de forma anónima pela Bloomberg admitem que uma tentativa de Macron capitalizar junto das classes trabalhadoras (o eleitorado que lhe é mais adverso, sobretudo o operariado) para melhorar as possibilidade de ser reeleito, aliada à hipótese de a intransigência de Boris Jonhson ser favorável a um não acordo, poderão criar uma espécie de "tempestade perfeita".

Nova ronda negocial na próxima semana
Na próxima segunda-feira, dia 17 de agosto, serão retomadas as conversações depois de as últimas rondas negociais terem terminado sem que se verificassem avanços concretos nos principais entraves a um compromisso. 

No final da última ronda, Barnier admitiu mesmo que tendo em conta o estado das negociações é  "improvável" obter um acordo com o Reino Unido em tempo últil. Por seu turno, David Frost, chefe da missão negocial britânica, confirmou que pela parte de Londres o cenário de não acordo está em cima da mesa. Ambos os lados pretendem fechar um acordo até outubro para dar tempo para que se proceda à respetiva aprovação pelos diferentes parlamentos nacionais. 

Consumado o Brexit a 31 de janeiro deste ano, teve início um período de transição que vigora até ao final de 2020 e durante o qual o Reino Unido permanece integrado no mercado único e na união aduaneira. Mas se no final deste ano não tiver sido alcançado um acordo, as relações comerciais entre a UE e o Reino Unido passam a ser feitas segundo as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).
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