Banca & Finanças Carlos Santos Ferreira: Relatório da EY "tem dados omissos, errados e contraditórios"

Carlos Santos Ferreira: Relatório da EY "tem dados omissos, errados e contraditórios"

O antigo presidente da Caixa, que está a ser ouvido na comissão parlamentar de inquérito à gestão do banco público, diz que o relatório da EY gerou perceções erradas.
Carlos Santos Ferreira: Relatório da EY "tem dados omissos, errados e contraditórios"
Rafaela Burd Relvas 30 de abril de 2019 às 15:53
O relatório da auditoria realizada pela EY à gestão da Caixa Geral de Depósitos (CGD) é "factual", mas "factualmente infeliz". Tem "dados omissos, dados errados, dados contraditórios" e uma "apresentação pouco cuidade e pouco profissional". É desta forma que Carlos Santos Ferreira, antigo presidente do banco público, olha para a auditoria feita pela consultora a 15 anos de gestão da CGD, que diz ter conclusões que criam "uma ideia de facilitismo e de irregularidades na concessão de créditos" por parte da instituição, uma ideia de que rejeita.

"Após a divulgação pública do relatório da EY, assistiu-se a uma série de comentários dos mais variados quadrantes, formulando juízos de valores que têm criado uma ideia de facilitismo e de irregularidades na concessão de créditos por parte da CGD", começou por dizer Carlos Santos Ferreira, que está a ser ouvido, esta terça-feira, 30 de abril, na segunda comissão parlamentar de inquérito à recapitalização da CGD e à gestão do banco.

"É pertinente reconhecer que alguns dos intervenientes no debate público simplesmente não leram o relatório, ou leram o que lhes interessava. Outros não entenderam e outros procuram extrair conclusões que ele não comporta", continuou, acusando ainda alguns de terem "motivações pessoais e políticas" nas análises que têm feito, sem apontar nomes. "As vozes do bom senso", diz, "foram poucas e, em geral, mal recebidas, porque iam contra aquilo que se pretende demonstrar".

No entendimento de Carlos Santos Ferreira, presidente da Caixa entre agosto de 2005 e janeiro de 2008, "o relatório da EY é um relatório factual, mas é um relatório factualmente infeliz". Isto porque "tem dados omissos, dados errados, dados contraditórios, uma apresentação pouco cuidada e pouco profissional".

Importa recordar que o relatório da EY aponta para Carlos Santos Ferreira como um dos presidentes da Caixa que mais créditos ruinosos aprovou. No período em que esteve à frente do banco público, segundo os dados da auditoria, a Caixa aprovou três créditos que mereceram um parecer de risco desfavorável por parte da direção de risco, 44 créditos que tinham um parecer de risco condicionado (isto é, que poderia ser aprovados na condição de serem asseguradas algumas garantias, o que, em muitos casos, não aconteceu) e outros cinco créditos em que não foi encontrado qualquer parecer de risco.

Em concreto, foi durante a sua presidência que foram decidadas, por exemplo, as operações de Vale do Lobo e da Artlant, duas das operações mais ruinosas para a Caixa Geral de Depósitos, e que constam do top 25 dos créditos que geraram perdas globais superiores a 1.200 milhões de euros para o banco público.

Sobre isto, Carlos Santos Ferreira defende duas ideias essenciais: primeiro, rejeita que tenham sido tomadas decisões contrárias às posições da direção de risco; segundo, aponta para a crise financeira mundial como o principal motivo para as perdas de milhões que alguns destes créditos geraram.

"O relatório da EY não teve por finalidade analisar a substância económica das operações de crédito, mas apenas o seu processo formal. Por outras palavras, o relatório mostra que não é possível ser estabelecida qualquer relação entre o teor dos pareceres de risco, as garantias que eram exigidas e as perdas geradas por estas operações", começou por dizer sobre este assunto.

"Tenho a convição de que não foram tomadas decisões à margem do conselho de crédito e que todas as decisões foram tomadas no estrito cumprimento das regras da altura", acrescentou, repetindo aquilo que já tinha dito quando fou ouvido na primeira comissão de inquérito à Caixa. E continuou: "Considero praticamente impossível que tal acontecesse. Aliás, a direção de risco não aceitaria isso sem, no mínimo, exigir que fosse tomada nota da sua discordância".

Quanto às perdas que estes créditos geraram, Carlos Santos Ferreira lembra que 2008 foi um ano de crise em todo o mundo. "Seria quase impossível que assim não fosse face à crise que se viveu nesse período", considerou.

Notícia atualizada às 16:01 com mais informação.



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