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Miguel Faria e Castro: “Não é claro como vamos sair das moratórias”

Miguel Faria e Castro, economista da Divisão de Estudos da Reserva Federal de St. Louis, manifesta preocupação principalmente com o "timing" do final das moratórias concedidas no âmbito da crise pandémica.

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Há riscos de danos permanentes da economia, deixados pela pandemia?

Há potenciais fragilidades que são importantes. Há a questão das moratórias. Tenho acompanhado mais ou menos o assunto e prestado muita atenção ao que os principais banqueiros de Portugal dizem. Há coisas que ainda não percebi completamente. Os CEO dos principais bancos portugueses têm dito que para já as moratórias não são um problema. Mas depois vejo as previsões que estão a preparar para potenciais incumprimentos e os valores parecem-me estar muito aquém dos valores das moratórias. Claramente estão à espera que assim que as moratórias sejam levantadas isso não leve a uma onda de incumprimento.

Acha que vai ser assim?

Isto é o dinheiro deles, não é o meu dinheiro, portanto eles saberão melhor do que eu. Mas eu estou aqui a cruzar os dedos e a esperar que eles saibam o que estão a fazer. Os dados que vão saindo do Banco de Portugal para mim são um bocado assustadores.

Como avalia a política das moratórias?

Tenho ‘mixed feelings’. Por um lado fez sentido na altura abrir este programa, mas se calhar está a estender-se demasiado e não é claro como é que vamos sair daqui. O Banco de Portugal lançou um boletim há pouco tempo que indica que no setor do turismo 60 ou 70% das empresas estão a utilizar moratórias, o que é uma coisa incrível. Isso é uma grande fragilidade. Em termos de política foi bem feita no início mas se calhar já devia ter sido repensada.

Que estratégia se poderia encontrar para lidar com o fim das moratórias?

Um dos principais desafios de política pública e económica em Portugal em 2021 vai ser perceber quando acabar com as moratórias. Se forem levantadas demasiado cedo, pode levar a que muitas empresas que seriam viáveis se tivéssemos esperado que a recuperação estivesse mais avançada, vão à falência. E numa economia muito pouco dinâmica como a portuguesa, em que há muito pouca criação e destruição de emprego e de empresas, uma grande vaga de destruição de empresas pode levar anos a que a economia recupere. por outro lado, se estendemos as moratórias por demasiado tempo podemos estar a criar empresas zombies, que não são viáveis, que deviam morrer mas que continuam vivas porque os bancos continuam a renegociar termos de pagamentos de dívidas. Isso é um problema grande.

O Governador do Banco de Portugal tem defendido que de maneira nenhuma Portugal pode ficar isolado da UE no que for decidido em relação às moratórias. Concorda?

Em termos políticos seria mau estarmos numa situação diferenciada porque isso retira poder negocial com as instituições europeias. Em termos económicos, vai depender muito do timing, perceber se o momento é propício à economia portuguesa. Uma coisa que é possível que tenha de vir a ser pensada é adaptar o levantamento das moratórias a diferentes setores. Não sei o quão legal seria, porque pode interferir com regras de concorrência, mas devia ser pensado o levantamento faseado das moratórias, consoante os setores.

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