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António José Teixeira 20 de Abril de 2018 às 13:00

Folha de assentos

Há muito veneno à solta. Sabemos pouco do que se passa mesmo quando a comunicação é torrencial. Nunca o mundo foi tão próximo e transparente. E tão enganador. É preciso mais política e mais compromisso.

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acordos. O aperto de mão trocado entre o primeiro-ministro e o líder do PSD é um acto simbólico cheio de sentido político. António Costa e Rui Rio entenderam-se sobre o que devem ser as pretensões portuguesas na negociação do próximo Quadro Financeiro Plurianual europeu, sobre a agenda da estratégia de desenvolvimento do País para a próxima década e sobre a transferência de competências para as autarquias locais. Não é coisa pouca, sobretudo se tivermos em conta que este é um governo apoiado à esquerda, que socialistas e sociais-democratas não se entendem em coisa nenhuma há muito e que o que está em causa é muito importante para Portugal. O Governo ganha peso e centralidade e o PSD revela-se capaz de construir compromissos. Poderá perder algum espaço de contestação do Governo, mas ganha credibilidade enquanto parceiro de soluções para problemas do País. A política é a arte do compromisso. Quem a cultiva marca pontos e o País agradece. 

venenos. Num episódio da mais recente temporada da série televisiva "Homeland", um agente secreto dos EUA, que se tornou espião russo, é envenenado pelos americanos. Um envenenamento que aparenta ter mão da Rússia, mas que faz parte dos jogos de enganos em que a espionagem e a política são mestras. Na ficção que passa nas nossas casas, a Rússia usa as mais antigas artimanhas da espionagem, mas faz a guerra nas redes sociais. Os envenenamentos dos nossos dias, sejam em urbes britânicas ou nos atoleiros sírios, padecem do mesmo jogo de enganos. E vão desde a denúncia de atrocidades à fé que nos pedem na palavra tantas vezes ardilosa e mentirosa, cheia de "provas" e "evidências" que não interessa comprovar por quem de direito. O jogo das aparências é tão frequente que nem a verdade resiste. Sabemos pouco sobre o que se passa mesmo quando a comunicação é torrencial. Nunca o mundo foi tão próximo e transparente. E tão enganador. 

perfeito. Poucos dias depois do anúncio da retirada de tropas da Síria, os EUA atacaram alvos sírios, a pretexto de mais um alegado ataque de Assad com armas químicas. Há precisamente um ano, Trump retaliou pelo mesmo motivo. Desde 2013, há registo de 34 ataques com armas químicas na Síria, armas proibidas há muito. Nem por isso os seus arsenais foram efectivamente desmantelados. Os ataques, cirúrgicos, têm timings ajustados às contingências internas. Donald Trump e Theresa May estavam a precisar de desviar atenções das suas dificuldades políticas e o recurso à iniciativa militar costuma mobilizar o patriotismo e desvalorizar as fragilidades da governação. Trump prometeu mísseis "lindos, novos e inteligentes" de forma galhofeira, utilizando o Twitter para ameaçar e logo desvalorizar. Todos avisados e prevenidos - a França encarregou-se de serenar a Rússia -, os alvos foram destruídos e a operação militar foi um êxito. Um ataque "perfeito", que talvez tenha deixado tudo na mesma. Rússia, Irão e Turquia continuarão a ditar as regras num atoleiro cada vez mais fundo e pantanoso. Deste lado, registe-se que EUA, Reino Unido e França foram capazes de se articular. A guerra segue na Síria e o trumpismo promete continuar a inquietar-nos. 

estrangular. Mais do que a Síria, o que parece estar em causa nas movimentações europeias e americanas é a Rússia. Do lado dos EUA, a doutrina estratégica, revista no ano passado, identifica a Rússia e a China como os competidores principais. Em relação à China, o crescimento económico e a expansão global são vistos como uma ameaça à hegemonia americana. Trump começou uma guerra comercial, que se arrisca a perder. A Rússia é simultaneamente um embaraço e uma perturbação para os EUA. Um embaraço pelas relações pessoais pouco claras entre Putin e Trump. Uma perturbação porque o peso político e a influência russas continuam fortes, ocupando zonas de influência dos EUA. Basta olhar para a Turquia ou para a Síria. A Rússia tem uma economia vulnerável, mas com um enorme território e uma grande força energética. Não é a primeira vez que há a tentação de a estrangular. Correu sempre mal. A Rússia imperial merece combate nas suas derivas expansionistas, mas talvez não seja boa ideia tentar isolá-la. 

liberal. Por cá, recebeu o título "De Esquerda, Agora e Sempre - Para além das políticas identitárias" (Tinta da China), no original é "The Once and Future Liberal: After identity politics". O autor é Mark Lilla, um académico da Universidade de Columbia, e o seu ensaio é desafiador. Não apenas para os liberais/democratas, a esquerda americana, mas também para a esquerda europeia. Mark Lilla diz que os liberais perderam a disputa pelo imaginário americano. Roosevelt chamou os americanos ao New Deal, Lyndon Johnson cativou-os com A Grande Sociedade e os direitos civis. Reagan fez valer o Governo mínimo e a iniciativa individual. Clinton e Obama trouxeram esperança, mas pouco mudaram, até por não disporem de suficiente poder legislativo. Os liberais não criaram uma nova visão política de que o país partilhasse. Diz Lilla: "Os liberais entregaram-se à política dos movimentos sociais assentes na identidade". Fragmentaram a sociedade em vez de a unirem. Por isso os republicanos dizem representar o americano comum, enquanto os democratas serão o partido das elites urbanas. Falta aos liberais uma visão partilhável por todos. Mark Lilla diz que "essa coisa é a cidadania", a ideia de que é preciso assegurar que nenhum de nós corre o risco de ser deixado para trás. À consideração da esquerda. 

midas. O inventor do Facebook foi ao Congresso americano pedir desculpas pelos efeitos perversos da sua invenção. Pareceu naïve, quase infantil. Os novos midas, criadores de programas e algoritmos que correm na tecnologia digital, transformaram o nosso mundo num sentido que nem sempre escolhemos e em que o consumidor sai consumido. Demorámos tempo a perceber que há um novo universo que escapa ao poder dos Estados e dos cidadãos, que se erige numa espécie de mundo paralelo tão fora de controlo como controlador de tudo e de todos. Sob uma capa libertária, os gigantes tecnológicos do Facebook, do Google ou da Amazon tornaram-se big brothers. Todos somos dados. E se ainda não o somos em dados nos tornaremos. O algoritmo serve-se de nós, mas não nos serve. Cria a ilusão de que nos pode dar tudo à nossa medida, como se não precisássemos de desmedida. Não entrámos nas trevas, mas precisamos de regular os gigantes e de garantir que as ferramentas digitais servem mesmo para nos tornar mais livres. O primeiro passo é quebrar-lhes os monopólios.


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