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António Moita - Jurista 23 de Junho de 2019 às 17:45

Juntar a fome com a vontade de comer

As eleições europeias confirmaram o que as sondagens já vinham indicando. Com esta performance CDS e PSD não voltarão tão cedo a formar governo. Logo as respetivas estruturas partidárias se começaram a movimentar preparando o pós-outubro.

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Algumas vozes se têm levantado para lançar a ideia da urgência de uma união entre as forças políticas à direita do PS para enfrentar o duro combate das eleições legislativas de outubro próximo. Soluções artificiais pensadas apenas para perder eleições por pouco, fundadas na necessidade de resguardar lideranças e de manter cadeiras no Parlamento. Proposta que não anima ninguém e será sempre vista pelo eleitorado como "juntar a fome com a vontade de comer".

 

Em 2015, a coligação "Portugal à Frente" ganhou as eleições com cerca de 38% dos votos sem que este resultado lhe tenha permitido formar governo. Criou-se a convicção no espaço político da direita que esta só regressaria ao poder quando voltasse a conquistar uma maioria absoluta. A teimosia de Passos Coelho em continuar a liderar um PSD anémico e desorientado e a saída de Paulo Portas libertando o CDS para percorrer outro caminho levaram a que uma aliança natural num ciclo político e económico extremamente difícil se tivesse desfeito.

 

Foram seguidas estratégias diferentes. O PSD apostou na impossibilidade de Costa obter bons resultados alicerçado na "geringonça" e Assunção Cristas assumiu um novo discurso mais próximo da matriz democrata-cristã de um CDS tradicional ainda que sem grande renovação nas caras que a acompanharam. Costa foi ganhando e, simetricamente, Passos Coelho foi perdendo espaço. Cristas obteve um resultado histórico nas autárquicas de Lisboa e, precipitadamente, convenceu-se de que o futuro lhe pertencia. Chegou Rui Rio e com ele se acentuaram as crises internas no PSD. Não conseguindo convencer o eleitorado não logrou pacificar as estruturas. O PSD tradicional só se acalma quando cheira a poder.

 

As eleições europeias confirmaram o que as sondagens já vinham indicando. Com esta performance CDS e PSD não voltarão tão cedo a formar governo. Logo as respetivas estruturas partidárias se começaram a movimentar preparando o pós-outubro. Não é bonito de ver, mas em política é normalmente assim que as coisas se passam.

 

A direita portuguesa precisa de construir e apresentar uma proposta de mudança profunda de uma sociedade que vive em torno de um Estado cheio de vícios, que suga o nosso dinheiro como que se não houvesse amanhã, que tudo quer regular e que não assegura a satisfação de necessidades básicas dos cidadãos. Para isso é preciso tempo e um espaço de liberdade que estes partidos não têm e não dão. Pela simples razão de que a vida dos seus líderes depende dos resultados das próximas eleições legislativas. Mas depois desse teste, que será provavelmente fatal para alguns, haverá condições para começar de novo. Em liberdade, com arrojo, com criatividade e, assim espero, num clima de unidade construído em torno de ideias simples para pessoas comuns. Só uma direita unida, renovada, livre, inclusiva e com projeto voltará a conquistar o poder. Leve o tempo que levar. Talvez não seja tanto como isso.   

 

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