António Moita
António Moita 22 de abril de 2019 às 21:15

Pedras que choram. Pedras que unem

Foi um tempo de dor em que assistimos impotentes ao "choro das pedras". É agora tempo de pedirmos para todos nós enquanto comunidade, o mesmo que queremos para a catedral de Paris. Diálogo, respeito, concertação, solidariedade e reconstrução.

A catedral de Notre-Dame de Paris, monumento com mais de oito séculos de história, além de património da humanidade e de atração turística para muitos milhões de visitantes a cada ano, veio abrir, logo após a tragédia que se verificou no passado dia 15, um espaço de diálogo, de respeito, de concertação, de solidariedade e de reconstrução. Tudo aquilo que França não teve nos últimos meses.

 

Meses de profunda divisão interna, com posições extremadas entre o sistema e todos aqueles que o alimentam sem adequada retribuição, com sinais claros da crise porventura inultrapassável de um Estado Social não sustentável e em que se tornou evidente a incapacidade de resposta de governantes distantes, sem ideias, sem visão e sem rasgo.

 

Esta tragédia foi direta ao coração do povo francês e, porque não dizê-lo, sensibilizou todos os povos tal a onda de solidariedade que conseguiu gerar por todo o mundo. E atrás de si trouxe uma reflexão, que se espera profunda, sobre o que nos move enquanto povo, sobre o que nos estimula enquanto nação, sobre o que cada um de nós representa numa sociedade em que todos somos partes, quantas vezes insignificantes e sem voz, e em que nunca há lugar para que somemos e sejamos um todo.

 

Verificamos assim que o património, neste sentido, tem caráter universal e é indivisível. Não se trata apenas de um extraordinário monumento, exemplo de sucessivos estilos arquitetónicos em que predomina o gótico de forma esplendorosa ou em que podemos identificar inúmeros elementos de profundo significado para os crentes. Trata-se fundamentalmente de um legado que todos queremos ver preservado e de um repositório que guarda um conjunto de valores que não queremos ver destruídos.

 

Vivemos tempos de incerteza, de descrença, de esquecimento ou mesmo de delapidação de valores que constituem traves mestras da civilização ocidental. São normalmente as tragédias que, pela sua brutalidade, revelam as nossas vulnerabilidades e atestam a nossa impreparação para prevenir situações extremas ou para combater quem aposta na destruição de uma sociedade e de um ambiente social e cultural que nos caracteriza ou de instituições seculares que regulam a nossa vida enquanto comunidade.

 

Foi um tempo de dor em que assistimos impotentes ao "choro das pedras". É agora tempo de pedirmos para todos nós enquanto comunidade, o mesmo que queremos para a catedral de Paris. Diálogo, respeito, concertação, solidariedade e reconstrução. Por outras palavras, o regresso aos valores fundadores da Europa de paz, de coesão e de progresso. Porque independentemente de todas as tragédias e de todas as agressões externas, estas são as pedras que verdadeiramente terão condições de nos manter unidos.

 

Jurista

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