Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 10 de maio de 2018 às 20:16

Quem se mete com o PS leva

É revelador como para muitas pessoas – militantes, dirigentes, jornalistas, opinadores – o tempo de assumir coisas óbvias sobre Sócrates é o tempo escolhido pela liderança do PS, em função estrita dos interesses do partido.

"Caras e caros camaradas, estamos todos por certo chocados com a notícia da detenção de José Sócrates. Os sentimentos de solidariedade e amizade pessoais não devem confundir a acção política do PS, que é essencial preservar, envolvendo o partido na apreciação de um processo que, como é próprio de um Estado de direito, só à Justiça cabe conduzir com plena independência, que respeitamos."

 

Foi com este sms, enviado a todos os militantes, que a 22 de Novembro de 2014, dia seguinte à detenção de Sócrates, que António Costa tentou pôr uma rolha no assunto. Dias depois visitou Sócrates na prisão e cortou com precisão e frieza de cirurgião: Sócrates estava a defender "a sua verdade". O sucesso de Costa em silenciar o caso foi total. Foi-se repetindo o mantra de que o PS sempre separou a justiça da política – o que não é verdade, basta lembrar a acção do próprio António Costa em 2003 no caso Casa Pia – até que se deixou de fazer perguntas.

 

Nos media o debate sobre o julgamento político e ético de Sócrates foi, com honrosas excepções, morrendo. No partido e na indústria do comentário quase toda a gente acatou a instrução do PS de Costa: Sócrates era tóxico, mas não era para ser discutido. Muitos comentadores e jornalistas preferiram aliás relativizar o que se ia conhecendo sobre as finanças do homem, atacando quem ia revelando detalhes da investigação. Os outros partidos, por telhados de vidro próprios ou conveniência táctica, ficaram calados. A estratégia estava a correr bem ao PS.

 

Eis que quase quatro anos depois da detenção, e mais de sete meses depois de ser conhecida a acusação, o PS sinaliza uma instrução contrária. Escolhe-se um momento em que Costa está fora do país. E escolhem-se figuras importantes ligadas no passado a Sócrates – Carlos César, João Galamba, Santos Silva – para falar sobre o assunto. O que disseram, em substância, não é assombroso: "obviamente que é algo que envergonha qualquer socialista, sobretudo se as matérias de que é acusado se vierem a confirmar", disse Galamba. Obviamente. Mas no jogo da política foi um sinal gigante: já há autorização para abater Sócrates.

 

De um dia para o outro abriu-se "o saco dos ventos", para citar Manuel Alegre. Deste saco saiu uma indignação antes não assumida – e a descoberta de que não é preciso esperar pelo longo tempo da justiça para fazer o julgamento político e ético de um homem que há três anos reconheceu viver uma vida de luxo paga por um amigo, com avultadas quantias em dinheiro vivo porque, dizem os seus advogados, não confiava no sistema bancário.

 

Não aconteceu coisa alguma no caso Sócrates nos últimos meses que justifique agora uma admissão tão concertada (talvez o tom de César tenha saído fora do guião, mas tudo foi concertado). É possível que com as imagens de interrogatórios na televisão e o acumular de casos – Sócrates acusado, Pinho avençado e outros ministros escutados por causa das PPP – o PS esteja a antecipar o barulho antes que este surja nas eleições. Com o défice a caminho de zero Costa já afastou o PS de uma marca de Sócrates, a bancarrota. Agora tenta cortar com o outro.

 

Mas, nestes últimos dias, o mais chocante foi perceber como para muitas pessoas – militantes, dirigentes, jornalistas, opinadores, etc. – o tempo de assumir coisas óbvias e graves é o tempo escolhido pela liderança do PS. É possível que haja medo sobre o que Sócrates possa revelar e que isso condicione muita gente. Seja qual for a razão, é uma demonstração de fragilidade, da política e das forças da "sociedade civil", perante o interesse do partido que há anos teve um dirigente que avisou: quem se mete com o PS leva". Deprimente.

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