João Costa Pinto
João Costa Pinto 25 de fevereiro de 2019 às 20:10

Bancos e Economia - (II)

Depois de uma década de esforços os mercados bancários da zona euro permanecem em grande parte vulneráveis e com elevado nível de fragmentação - o que reduz a eficácia da política monetária, com prejuízo do financiamento das economias.

1. Durante décadas o movimento de globalização dos mercados financeiros foi impulsionado pela acção convergente de dois tipos de factores: por um lado, as concepções liberais de auto-regulação que - sobretudo desde Reagan e Thatcher - desmantelaram as barreiras regulamentares e administrativas que enquadravam a actividade financeira; por outro, uma onda de inovação financeira e tecnológica que abriu caminho à armazenagem, ao tratamento e à transferência de volumes crescentes de capitais a baixo custo.

 

Verificou-se assim um desenvolvimento maciço dos mercados financeiros que se tornaram cada vez mais integrados e interdependentes. Como resultado desta evolução, a massa de activos financeiros atingia, nas vésperas de 2007/8, um valor correspondente a cerca de três vezes o do produto interno bruto mundial, com um duplo efeito: acentuou a natureza híbrida das economias modernas, com a "economia real" envolta numa massa crescente de transacções puramente financeiras; expôs cada vez mais a "economia real" ao impacto das flutuações e das crises dos mercados financeiros. No entanto a crise financeira de 2007/8 veio mostrar que tal impacto não é idêntico em todas as economias, dependendo fortemente da organização e do funcionamento dos respectivos mercados financeiros.

 

Na verdade, o movimento de globalização financeira deu-se em torno de dois modelos distintos de sistemas financeiros: enquanto num o financiamento é sobretudo assegurado por mercados de capitais, noutro é-o por mercados bancários. No primeiro - característico da generalidade das economias dos países de tradição anglo-saxónica - desenvolveram-se instituições conhecidas como Bancos de Investimento. Instituições que operam em ligação com os mercados de capitais e que dependem sobretudo da cobrança de comissões e de receitas provenientes dos serviços que oferecem. Em contrapartida nas economias europeias os sistemas financeiros desenvolveram-se em torno de Bancos Universais - conhecidos por Bancos Comerciais - que assumiram por inteiro as funções que referi no artigo anterior. Trata-se de um modelo de sistema financeiro aparentemente mais simples, mas claramente mais vulnerável e menos eficiente quando se trata de financiar o tecido produtivo - em particular a inovação e o investimento.

 

Enquanto os Bancos de Investimento gerem em grande parte risco alheio e contribuem para o desenvolvimento dos próprios mercados de capitais, os Bancos Comerciais acumulam sobretudo risco próprio e tendem a "ocupar" todo o mercado, dificultando o aparecimento de produtos e de instrumentos de financiamento alternativos ao crédito bancário. Trata-se, de facto, de um modelo de intermediação financeira que favorece ondas de financiamento de curto prazo - com a excepção do crédito à habitação, nos mercados bancários com um peso significativo de operações a taxa fixa - e que tende a "travar" o desenvolvimento do mercado de capitais.

 

2. Se, para além disso, tivermos presente que depois de uma década de esforços os mercados bancários da zona euro permanecem em grande parte vulneráveis e com elevado nível de fragmentação - o que reduz a eficácia da política monetária, com prejuízo do financiamento das economias - compreendemos o interesse em desenvolver os mercados de capitais e de caminhar para uma União de Capitais (a continuar).

 

Economista      

       

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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