Fernando  Sobral
Fernando Sobral 23 de maio de 2017 às 20:58

Madonna e o mundo material 

Enquanto o país se comove com a telenovela da possível aquisição de uma quinta, de um apartamento ou de um tuk-tuk por Madonna, a Europa ofereceu a Lisboa uma canção pop: podes dançar, mas o ritmo é escolhido por mim.

A Comissão Europeia acha-se, às vezes, um DJ de Ibiza mas, no fundo, é um Frankenstein do hip-hop. Continua a desconfiar de Lisboa, mas acena com a paz. Não podemos sair para já deste mundo. Madonna, que sempre foi uma estratega política, uma versão musical de Maquiavel e Sun Tzu, já tinha deixado tudo explícito num dos seus temas incontornáveis, "Material Girl": "You know that we are living in a material world/And I, I'm a material girl." Percebendo nas entrelinhas as recomendações da vetusta CE, Portugal vai poder respirar melhor, mas tem de se manter na linha. Da austeridade. Com mais ou menos açúcar. Não é para admirar: as contas são agradáveis, mas há uma dívida por pagar do tamanho dos Pirenéus. É por isso que é sempre empolgante escutar o fogo-de-artifício do BE e do PCP sobre gastar mais uns dinheiros que não existem. Mas sabemos como é: cada um tem de alimentar as ilusões dos seus eleitores.

 

Por isso, o "optimismo" tem de ser controlado. Como explica Madonna, o materialismo destes dias só é dialéctico nalguns casos. É preciso estratégia, tacto e utilizar a inteligência para se atingir os objectivos. Logo, números de trapézio verbal são arriscados. Há mais folga, mas não se descobriu um poço de petróleo no Ministério das Finanças. Temos, claro, de ser condescendentes: a política, entre nós, transformou-se numa outra espécie de "fast food". Não se desfruta, nem se digere. Consome-se. E a classe política move-se à velocidade do caracol para mudar isso. Insiste-se muitas vezes em oferecer à população portuguesa, desorientada sobre o rumo que há-de seguir, uma bússola fora de prazo. É preciso sarar as feridas dos anos de austeridade, em que muitos trabalhadores do sector privado tiveram de emigrar, com as suas valias, para sobreviver. Porque não tinham emprego para a vida.

 

Grande repórter

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