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A compulsão das listas

Quando a rotina dos dias se torna tendencialmente monótona, sem os encontros e os rituais fora de portas que a pontuavam, ser capaz de criar e cumprir objetivos é um seguro contra a insanidade mental.

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1. Fazem listas infindáveis de todas as tarefas que impõem a si mesmos cumprir.

2. E, é claro, fazem sublistas para os itens da sua lista.

3. Descarregam aplicações especiais no telemóvel para o efeito.

4. Todas as manhãs contemplam a lista com desânimo: está tão longa como no dia anterior. Esquecem completamente quantas coisas lhe acrescentaram, entretanto.

5. Quando lhes perguntamos se viram o cano a pingar, respondem indignados: “Já está na minha lista.”

6. Se exigimos que nos deem um minuto de atenção para tratar de um imprevisto, agitam-se. “Não está na minha lista”, desabafam, disfarçando o incómodo com um sorriso.

7. Quando alguém lhes bate à porta do gabinete, sem hora marcada, exclamam: “Vou pô-lo na minha lista”.

8. Não fazem batota — nunca incluem na lista coisas que já estão feitas, só pelo prazer de imediatamente as riscarem.

9. Aliás, se é verdade que tiram alguma satisfação da tarefa cumprida, é uma felicidade efémera porque a sua atenção se foca automaticamente no que ainda ficou por fazer.

10. Uma leitura por terceiros da lista verificará que não inclui palavras como “descansar”, “dormir”, “ver séries”, que enchem as listas do comum dos mortais. O prazer só pode vir depois do dever — e as obrigações que ainda têm por cumprir encarregam-se de assegurar que esse momento nunca chega.

Pronto, é verdade, este é o retrato-robô de um obsessivo-compulsivo das “To Do lists” já em estado adiantado de mania, mas suspeito de que não está assim tão longe da realidade de muita gente. E suspeito, também, que o confinamento só pode agravar esta ânsia de darmos sentido aos nossos dias, no isolamento do teletrabalho ou, pior ainda, de um lay-off que nos remete para casa, num “déjà vu” a que falta a adrenalina da absoluta novidade que o primeiro nos concedeu. Quando a rotina dos dias se torna tendencialmente monótona, sem os encontros e os rituais fora de portas que a pontuavam, ser capaz de criar e cumprir objetivos é um seguro contra a insanidade mental. Desde que, evidentemente, não se torne numa armadilha, potenciando a nossa frustração.

Aparentemente, dizem os antropólogos, fazer listas é tão ancestral como a humanidade e até os nossos antepassados do tempo das cavernas terão recorrido a elas para pôr os pensamentos em ordem. Vai-se a ver e as gravuras de Foz Coa não são mais do que a “To Do list” do neandertal que as pintou — prometeu a si mesmo caçar um búfalo e, das duas uma, ou nunca o apanhou, ou o “certo” desvaneceu-se com o passar do tempo. Faz sentido. Qualquer pessoa que já escreveu uma lista percebe que, em dose moderada, nos ajudam a estabelecer prioridades, arrumam a cabeça e sobretudo criam uma ilusão de controlo — pelo menos fizemos o levantamento do que temos pela frente.

Em teoria, auxiliam-nos também a fugir da procrastinação embora possam funcionar exatamente ao contrário, rodeando a tarefa vital de tarefas da treta, só para mais uma vez “saltarmos” por cima da que nos bloqueou, mas com menos problemas de consciência. Afinal, não ligámos àquele idiota para renegociar um contrato, mas afiámos todos os lápis, que bem estavam a precisar! Ou, qualquer coisa como, hoje fiz uma lista enorme de tudo o que tenho para fazer, só não consegui foi encontrar a pessoa certa para dar conta daquilo tudo.

Umberto Eco, descobri eu, já pensou profundamente no assunto. O seu diagnóstico é que face a um limite, desencorajador e humilhante como é a morte, gostamos de todas as coisas que não têm limites e, por isso, não acabam nunca. Segundo defende, fazer listas é uma forma de escapar aos pensamentos de morte. “Gostamos de listas porque não queremos morrer”, conclui. Um bocadinho dramático, mas se calhar profundamente verdadeiro. Pelo sim, pelo não, nestes tempos mais negros, toca de acrescentar mais umas vinte coisas à lista de todos os dias. Assim sempre podemos argumentar com a senhora da ceifeira que volte mais tarde, porque ainda temos uma catrefada de assuntos por resolver.

P.S. – Se chegado aqui exclamar “É mesmo isto!”, e acrescentar um “Vou pôr na minha lista uma nota para imprimir este artigo”, é melhor avançar diretamente para a medicação.

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