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Plano de quarentena: dar cabo dos grafitis

A minha proposta é a sério: vamos limpar grafitis. Se cada Junta de Freguesia der aos voluntários uma parede vandalizada e uma lata de tinta, podemos sair melhor do que entrámos deste estado de emergência.

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Com as ruas desertas e, finalmente, a possibilidade de passear a pé sem sermos atropelados ou obrigados a engolir o fumo dos tubos de escape, vemos os lugares onde moramos como se fosse a primeira vez. Reparamos naquela casa que ficava sempre tapada pelos autocarros, vemos com olhos de ver a beleza da calçada que normalmente está tão apinhada de gente que nem distinguimos o desenho, subimos escadinhas nunca antes trepadas, e damos conta de como são extraordinários os azulejos de uma fachada. Mas nestas voltas maravilha, que nos devolvem os “nossos” espaços, ficamos mais chocados do que nunca com os atentados ao património, coletivo ou individual, que representam as pinturas e tags selvagens que conspurcam edifícios com tanto esforço recuperados e pintados, borrões de pretensa arte que inexplicavelmente admitimos. E são tantos e tantos, muros inteiros, fontes e biquinhas, portas e janelas, até os vidros de pessoas que acordam a perceber que foram vandalizadas durante a noite porque deixaram de conseguir ver para a rua.

Perante tudo isto é absolutamente inadmissível a passividade das autoridades, mas a nossa também. Queixamo-nos a medo, porque não sei por que carga d’água alguém parece ter decidido que é “fascista” obstar a estas supostas manifestações de talento, de supostos jovens que não têm onde exprimir a sua vocação senão nas paredes dos outros sem o seu consentimento; porque, quando tanta gente reverencia a “arte urbana”, receamos que nos chamem ignorantes e nos digam que aquilo que ali está é um Vhils ou um Bordalo II, e nós é que não sabemos ver. Ou, simplesmente, porque cansados de circular em comboios selvaticamente vandalizados e vendo o dinheiro dos nossos impostos canalizado vez após vez para a sua limpeza (750 mil euros entregues pelo Estado à CP, em 2019), sem que ninguém se pareça importar que sejam vandalizados de novo no dia seguinte, damos a guerra por perdida. E passamos a tentar não ver. Aceitando serenamente que, aqueles que elegemos para gerir a nossa terra, ou não vejam, ou sejam tão impotentes como nós quando se trata de castigar os infratores, e garantir que o mal não se propague qual covid-19.

Há uns anos fiz um apelo ao Presidente da República, porque me parecia uma causa mesmo à sua medida. Se fosse para a rua liderar uma brigada de limpa-paredes, daria um sinal público de que destruir a propriedade alheia não é aceitável. Ainda não desisti da esperança, mas como agora tem mais em que pensar, lembrei-me de uma nova proposta, ideal para o estado de emergência, e para a saída seletiva que se lhe segue.

 

O que não falta a muita gente é tempo e vontade de participar num projeto que lhes dê sentido à “quarentena”.



Cada junta de freguesia fazia o levantamento dos lugares vandalizados e atribuía uma parede, uma janela, uma fonte, uma biquinha, um muro a cada um dos voluntários que se inscrevesse no programa de limpeza da cidade, vila ou aldeia.

A distância social estaria mais do que salvaguardada e, para todos os efeitos, o serviço prestado era em tudo equivalente a sair para trabalhar, o que está previsto na lei, ou para o passeio para espairecer, se preferissem. Caso estivessem preocupados com gente demais na rua ao mesmo tempo, podiam atribuir-lhes uma hora certa, um horário para a semana, e para a semana a seguir a essa, porque o que não falta a muita gente é tempo e vontade de participar num projeto que lhes dê sentido à “quarentena”. Na certeza, de que quando, finalmente, pudéssemos voltar a sair à rua, as ruas valessem a pena ser revisitadas. Junta de S. Pedro de Penaferrim, St.ª Maria, São Martinho e São Miguel, de Sintra, podem contar comigo.

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