Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
João Carlos Barradas - Jornalista 21 de Julho de 2015 às 18:50

Cai Brasil, cai

Noutros tempos o trunfo seria espadas, mas apesar do descalabro da presidente e dos líderes do Congresso o sistema político brasileiro ainda conta com alternativas para escapar ao golpismo que derrubou João Goulart em 1964.

  • Assine já 1€/1 mês
  • 5
  • ...

As investigações do Ministério Público e da Polícia Federal, as deliberações dos tribunais, pelo seu cunho legítimo e legalista, obstam e sobrepõem-se a veleidades de conspirações civis e militares, mas agudizam a devastação nos círculos político-empresariais.

 

O que trará a independência, presumível lisura de procedimentos e eficácia do poder judicial ante a degradação dos braços legislativo e executivo, mancomunados com negocismo de alto e baixo de coturno é a grande incógnita.

 

O fundo do poço

 

Dilma Rousseff caiu no poço do desprezo e a aprovação do seu governo queda-se pelos 7,7%, contra 70,9% de opiniões negativas, segundo sondagem da "MDA Pesquisa", Universidade de Lavras (Minas Gerais), para a "Confederação Nacional do Transporte", divulgada terça-feira.

 

O descrédito de Dilma acentua-se e equipara-se aos piores momentos de Collor de Mello que teve de renunciar à presidência para escapar à ignomínia da destituição em Dezembro de 1992.   

 

O abalo no Palácio do Planalto é imenso já que 62,8% dos inquiridos defendem a destituição de Dilma, contra 32,1%, e apenas 15,3% aprovam o seu desempenho pessoal condenado por 79,9%, de acordo com o inquérito realizado entre 12 e 16 deste mês.

 

O escândalo dos escândalos

 

O executivo encontra-se sob fogo cruzado.

 

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, do "Partido do Movimento Democrático Brasileiro" (PMDB) mobiliza uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o "Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social" (BNDES) e o Tribunal de Contas investiga irregularidades no orçamento de Estado de 2014.

 

Apanhado no escândalo da "Petrobras", Cunha, e seu camarada de partido, Renan Calheiros, líder do Senado, sonegam apoio a Dilma e só a ponderação de interesses de Michel Temer, vice-presidente, e putativo candidato pelo PMDB à chefia do Estado em 2018, salva de momento a discípula de Lula da Silva do esquartejamento.

 

Ao entrar na liça, o BNDES é um dos braços de financiamento e controlo político ao serviço de todos os governos desde 1952 que passa a ser questionado numa CPI de vinganças e agravos que, potencialmente, pode degenerar no "escândalo de todos os escândalos".

 

"Lava Jato" revela-se pior do que o "Mensalão" por decapitar grandes empresas estatais e privadas e comprovar suspeitas quanto à corrupção do sistema de patrocínio brasileiro que inchou substancialmente ao incorporar na esfera do poder o "Partido dos Trabalhadores" em 2003. 

 

No caso da "Odebrecht", as investigações chegam a países como o Peru, previsivelmente à Colômbia e Equador, e, muito provavelmente, irão culminar em processos nos Estados Unidos ao abrigo do "Foreign Corrupt Practices Act".

 

Em Brasília, senadores e deputados claudicam ante a opinião pública pela sistemática troca de favores e conivência com grupos de interesses.

 

A inconsistência doutrinária e ideológica que prevalece num Congresso pulverizado (28 partidos na Câmara dos Deputados e 15 no Senado), sem disciplina partidária que se imponha a opções pessoais, passou, contudo, a ter um contraponto na guinada intolerante trazida pelos representantes evangélicos.

 

O conservadorismo evangélico vai, possivelmente, contar em novos realinhamentos políticos depois de a tempestade varar algumas lideranças partidárias. 

 

Lula e o tráfico

 

A investigação a Lula por tráfico de influência internacional e no Brasil tem muito para andar para eventualmente demover o ex-presidente de acalentar o retorno ao Palácio do Planalto.

 

Depois de abrir fogo contra Dilma, acusando-a de subverter "direitos laborais", Lula surgia com 22,8% nas intenções de votos para as presidenciais, atrás do senador Aécio Neves do "Partido da Social Democracia Brasileira" (35,1%) e à frente da evangélica Marina Silva (15,6%), no inquérito da "MDA Pesquisa".

 

Dilma dificilmente terá apoios para medidas de emergência que possam salvaguardar o objectivo de um excedente primário orçamental (excluindo pagamento dos juros da dívida) superior a 1%.

 

A contracção do PIB este ano deverá rondar 1,5% e o excedente a concretizar-se  ficará pelas décimas. 

   

Dilma e o fim do caminho

 

Bem pode Dilma clamar que não vai cair, que não está disposta a cair.

 

De facto, já bateu no fundo e o Brasil desbaratinou outra vez.

 

Só lhe falta cair na real.    

 

Jornalista

Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias