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Jorge Marrão 19 de Maio de 2020 às 09:40

Os sinais de desespero

O vírus que trouxe a crise económica revela que o destino governa a humanidade, como foi na peste de 1348. E nada permanecerá como outrora.

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A FRASE...

 

"Dizem-me que aquele momento em que a porta se abriu para a saída encenada de Mário Centeno e António Costa,... é política. Nada daquilo é política. É teatro. E do mau."

 

João Vieira Pereira, Expresso, 16 de Maio de 2020 

 

A ANÁLISE...

 

A maior crise do regime democrático no pós-25 de Abril está a aproximar-se. A situação restituiu o país a uma verdadeira dissimulação com encenações emanadas de Belém, São Bento e Terreiro do Paço para ofuscar a crua observação da gravidade da situação. A riqueza coletiva pode recuar entre 10 e 15 anos. Os sinais de desespero, todavia, foram dados: a polémica instalada, mas adiada, entre os poderes do Presidente da República, os do primeiro-ministro e os do homem dos recursos (poucos) das Finanças. Esta troika não se entendeu. Não deve ter sido apenas por causa de egos, pormenores ou leis não cumpridas.

 

Os momentos eleitorais estão próximos, mas a economia está a caminho duma rutura sem precedentes. Esta troika portuguesa sabe-o. Há que amansar o povo, as elites económicas assustadas com a perda de influência e dos negócios, as culturais com a perda de rendimentos, emprego e das ajudas estatais, e as dos media que se assustam com a fragilidade do momento. O aparelho administrativo do Estado sabe que beneficia de privilégios, perante o abalo catastrófico infligido aos trabalhadores do setor privado, e os micro, pequenos e médio empresários veem o seu sonho esboroar-se no período de uma quarentena, que ninguém sabe quando e como termina.

 

O medo promove a falsa unanimidade e o silêncio cúmplice, ou, em alternativa, as picardias e os ataques soezes de desesperados. As redes sociais comprovam-no. Os muros, não apenas os de pedra, mas os da falta de informação e escrutínio, tapam sempre qualquer coisa: a pobreza que se instala, a doença que não é tratada, o mal-estar dos trabalhadores que se tornaram todos precários com a ideia de falência das suas empresas, a falta de oportunidades para os jovens e a crescente incerteza dos idosos, aqueles por não saberem se vão conseguir emprego, comprar, arrendar casa e pagar as contas e os impostos, e estes porque não percebem o que lhes pode acontecer às pensões.

 

Os poderes em exercício, arrastando a oposição que tem de se manter alinhada, apelam ao sentido de responsabilidade institucional e à estabilidade que os credores exigem, para que o país seja como sempre foi nas palavras de Salazar: "A natureza humana muda muito pouco e os portugueses quase nada." O vírus que trouxe a crise económica revela que o destino governa a humanidade, como foi na peste de 1348. E nada permanecerá como outrora.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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