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Desarmados

O Bloco ocupou uma casa. O PC diz que nunca devíamos ter saído de casa e quer sair da UE. O PS nem quieto acerta e diz umas tolices sobre tudo menos a Europa de onde o seu candidato Schultz os enxotou. Embora seja de justiça reconhecer que o Dr. Seguro quando se leva a sério é uma boa anedota…

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Domingo passado. Fechado num avião, a regressar da emigração aos bochechos que nos destinaram, lá venho de mais um contributo privado para a nossa balança comercial.

 

Pego nos jornais da terra. Má ideia. Um senhor conselheiro do presidente da Comissão Europeia - Philippe Legrain de seu nome - decide estragar parte da boa disposição do regresso.

 

Nada de novo, mas uma franqueza desarmante sobre muito do que já sabíamos. Desde 2008, fazemos pouco mais do que resgatar o sistema bancário à conta de quem pouco, ou nada viveu acima das suas possibilidades.

 

E explica, basicamente, que quando a Alemanha, para proteger os seus bancos, acabou por passar por cima da regra do "no bail out" com o resgate da Grécia, acabou por transformar os problemas dos bancos em obrigações entre governos que ampliaram, multiplicaram, a dimensão da crise que condiciona o cenário político as próximas eleições europeias.

 

Em última e boa análise é isso que todos sentimos. Que fomos, de forma limpinha, atirados aos mercados - que ninguém sabe como nos tratarão daqui a um ano… - porque essa má gestão, fez com que os eleitores alemães se convençam de que nos iriam emprestar mais dinheiro para gastar em doces, sem perceber que, em boa parte, o começaram por fazer para pagar aos seus bancos e aos franceses, principais titulares da dívida grega.

 

E não percebem, também, que os modos coloniais destes programas de ajustamento foram bem mais centrados nas garantias de recebimento dos credores do que nas políticas de desenvolvimento e nas reformas que verdadeiramente trariam a sustentabilidade que agora, longa e dolorosamente, sai sempre do mesmo lombo.

 

Depois de uma década de apreciação da moeda que criámos, acumulando excedentes em quem produz tecnologia e vendendo ilusões a quem tem pouco para se expor à concorrência e já a não pode depreciar, acabámos num buraco em que a política passou ao lado do martírio deste sucesso em que nada mudou de verdade.

 

Ora a reforma das instituições e regras europeias são centrais a esse desenvolvimento e sustentabilidade. Dificilmente, sem solidariedade e com o Tratado Orçamental conseguiremos mais um iludir-nos num par de anos até tudo ser de novo igual. Sem outra solução para pagar a dívida então é a quadratura do círculo.  

 

Seria de esperar que fosse de tudo isto e de alternativas mesmo dentro dos partidos do "arco de governo" que fosse feita esta campanha eleitoral, que este prolongado sacrifício suscitasse o respeito da discussão séria destes temas.

 

Mas eu já sei o que a casa gasta e o sossego da viagem recomendaria o disco novo do Rodrigo Amarante ou as páginas do desporto... Contudo, um masoquismo, que está na altura de admitir ou tratar, levou-me às notícias da campanha eleitoral. E é assim: o Bloco ocupou uma casa. O PC diz que nunca devíamos ter saído de casa e quer sair da UE. O PS nem quieto acerta e diz umas tolices sobre tudo menos a Europa de onde o seu candidato Schultz os enxotou. Embora seja de justiça reconhecer que o Dr. Seguro quando se leva a sério é uma boa anedota… Já a Aliança fala em "pecado" e eu, que antes do avião estava de volta do Sr. Mersault, queria política em vez de tweets de padre… Há limites. Ou não. Se calhar não. Se calhar é isto. E sendo o voto a arma do povo lá vamos, dia 25, ficar outra vez desarmados.

 

Advogado

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