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Ulisses Pereira ulissespereira@hotmail.com 07 de Setembro de 2020 às 09:46

Um Verão agridoce

Parece que os investidores estão dispostos a comprar a qualquer preço e isso deixa-me nervoso.

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Ninguém se esquecerá do Verão de 2020, da mesma forma que todos se recordarão para sempre deste ano tão especial, pelas piores razões. Confesso que o título deste artigo, originalmente, era dirigido aos mercados mas aplica-se também à nossa vida quotidiana e ao que o mundo tem vivido.

A pandemia continua a fazer estragos em termos de vidas humanas em todo o mundo, nos Estados Unidos mantemos um ritmo de cerca de 1000 mortos diários, o Brasil já tem mais mortos por habitantes do que Itália (quando nos recordamos das imagens de Itália, quem diria que haveria países que sofreriam ainda mais?) e o número de infectados tem sofrido um aumento nas última semanas na Europa. Mas nem tudo são más notícias. Começa-se a conhecer melhor o vírus e a melhor forma de o combater, conseguindo reduzir a taxa de mortalidade. Com tantas vacinas na fase 3, é altamente provável que ainda este ano algumas delas provem ser eficazes e seguras, dando confiança que o primeiro semestre do próximo ano faça a vacina chegar a grande parte da população dos países mais desenvolvidos. Vivemos uma realidade dura, agreste, mas com o optimismo de vermos o princípio do fim deste pesadelo bem perto.

Falando de bolsa, se nos referirmos à realidade norte-americana estamos a falar de um Verão dulcíssimo. Os três principais índices norte-americanos atingiram máximos históricos, com as suas maiores empresas a atingir níveis estratosféricos e rebocando os índices para níveis absolutamente fantásticos, num Verão de sonho para os investidores, mesmo tendo em conta a má semana passada. Infelizmente, a bolsa portuguesa (e a maior parte das suas congéneres europeias) pouco tem sido contagiada pelas constantes subidas do mercado norte-americano e, depois do ressalto entre Maio e Junho, tem lateralizado, sem conseguir arrancar, ignorando o momento fabuloso que se vive do outro lado do Atlântico.

Tal como tenho referido, a zona importante a ter em conta no PSI-20 é o suporte dos 4.300 pontos. Para o desempenho no curto prazo da bolsa portuguesa é crucial que esse suporte não seja consistentemente quebrado, pois, caso isso aconteça, os ursos voltam a controlar todos os horizontes temporais, uma vez que considero que são eles que continuam a dominar no médio e longo prazo.

Porquê tamanha divergência entre o comportamento da maior parte das bolsas europeias (onde a Alemanha é uma das poucas honrosas excepções) e o do mercado norte-americano? Por um lado, pela dimensão da injecção de liquidez. É verdade que a Europa aprovou um pacote de estímulos muito significativos para ajudar na recuperação económica e que o BCE tem providenciado uma boa ajuda, nomeadamente no importante mercado de dívida pública, deixando os seus membros à margem do risco de uma crise da dívida como ocorreu há uma década. Mas é incomparável com a brutal injecção de liquidez no mercado americano com a FED a comprar diversas classes de activos, incluindo "junk bonds", deixando tranquilas milhares de empresas que recorrem ao mercado obrigacionista com a garantia de que terão sucesso e evitarão a falência.

Há outra razão determinante para justificar esta divergência entre o mercado americano e o europeu - as famosas FAANG. É esta a designação encontrada para estas cinco grandes empresas do mercado americano composta por Facebook, Apple, Amazon, Netflix e Alphabet (Google). O seu desempenho tem sido extraordinário e o seu peso forte nos índices leva-os a disparar. Além disso, acaba por contagiar outras acções. Faz sentido esta aposta nas FAANG? Teoricamente, é a aposta perfeita porque são empresas que (como quase todas as outras) vão beneficiar caso a pandemia abrande e a recuperação económica acelere, mas também, caso a pandemia não abrande, beneficiam dada a especificidade do negócio e o crescimento que tiveram fruto do maior tempo passado pelas pessoas em casa. O problema é que os investidores estão todos a pensar dessa forma, praticamente descurando um dos aspectos fundamentais em bolsa - o preço. Parece que os investidores estão dispostos a comprar a qualquer preço e isso deixa-me nervoso.

Como sabem, uma semana a seguir à implosão dos mercados, no final de Fevereiro, fiquei extremamente pessimista para o curto prazo dos mercados e reverti essa ideia, acreditando num ressalto em meados de Março, um dia antes de os mercados começaram a subir. Estive do lado certo nesses momentos. Mas, cerca de um mês depois, tornei-me pessimista para o médio prazo dos mercados (8/9 meses que terminam em Janeiro do próximo ano) e, até agora, não tenho tido nenhuma razão nesta minha última mudança de posição, não acreditando que o mercado americano conseguisse estas subidas fantásticas que tem conseguido.

Mantenho esse meu pessimismo. O mercado sobe à boleia de empresas gigantes e alicerçado nos triliões de dólares injectados no sistema, mas a desconexão com a economia real é cada vez maior. É verdade que, felizmente, uma vacina está para breve, mas já não será qualquer surpresa quando acontecer. Aplaudo quem tem tido a visão de ganhar dinheiro com estas subidas e, como já aqui o disse várias vezes, num clima de euforia, as acções podem sempre subir mais do que imaginamos, mas continuo pessimista para o horizonte temporal que defini. O que se tem vivido no mercado americano mostra sinais preocupantes de uma euforia que acaba sempre da mesma forma. A pior forma possível.


Lisboa não é contagiada pelo S&P 500
Evolução, em pontos, do S&P 500 (em cima) e do PSI-20 (em baixo)

A bolsa portuguesa, e a maior parte das congéneres europeias, pouco tem sido contagiada pelas constantes subidas do mercado norte-americano.


Artigo escrito em 03/09/20 às 12h35
Fontes: https://live.euronext.com/pt/
https://www.nyse.com/index

Ulisses Pereira não detém qualquer dos ativos analisados. Deve ser consultado o disclaimer integral aqui,onde também pode ser consultada a lista com as anteriores análises de Ulisses Pereira.

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico
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