Ulisses Pereira
Ulisses Pereira 29 de abril de 2019 às 09:57

Lutando contra os dividendos

Se perdermos algum tempo a fazer as contas, vemos que o impacto dos dividendos no PSI 20 é superior a 3%.
Continuamos sem ver sinais de fraqueza na Bolsa portuguesa. Este ano de 2019 tem sido marcado por um completo domínio dos touros, surpreendendo todos aqueles que tinham sido colocados fora do mercado por um triste e fraco ano de 2018.

Estamos em plena época de dividendos e é normal (e racional) que na abertura do dia ex-dividendo, as ações abram a corrigir sensivelmente o valor desse dividendo, seguindo depois o seu curso normal. Por esta razão - e uma vez que há alguns dividendos interessantes na Bolsa portuguesa - é normal que o PSI sofra alguma pressão descendente em função disso.

Um dos mitos urbanos que mais se ouvem é que as ações que distribuem dividendos chorudos sobem nas semanas anteriores a essa distribuição, com os investidores a aumentarem a procura pelo título de forma a poderem receber esse mesmo dividendo. Pura ilusão. Há muitos estudos efetuados nessa matéria e aquilo que a esmagadora maioria mostra é que não há qualquer padrão no comportamento das ações na véspera da distribuição de dividendos.

Faz sentido que assim seja. Para quê correr atrás de dinheiro quando, na sessão seguinte, a ação tende a abrir com o valor desse dividendo descontado? Alguns dirão que, muitas vezes, depois desse dia ex-dividendo a ação tende a recuperar o seu valor. Uma vez mais, a evidência prática não demonstra isso, uma vezes acontecendo isso, outras vezes não, sem respeitar qualquer padrão.

Então os dividendos não têm qualquer impacto na evolução da cotação de uma ação? Têm. Quando a empresa anuncia distribuição de dividendos acima do esperado, normalmente isso tem um impacto positivo na cotação. Mas isso ocorre a seguir ao anúncio e não na véspera da distribuição dos dividendos.

Alguns autores aconselham a compra de ações com elevadas "dividend yield". É algo que há mais de 2 décadas estudei nos corredores de uma cinzenta Faculdade de Economia. Sempre me custou a perceber que era melhor determos ações de uma empresa que distribuía uma grande parte dos seus lucros pelos seus acionistas do que outra que distribuía apenas uma ínfima parte. Afinal de contas, se os lucros ficam na empresa e se eu sou acionista da mesma, as ações devem valorizar-se por isso mesmo. E há ainda a importante questão fiscal de um pequeno investidor não conseguir escapar à tributação automática dos dividendos, recebendo apenas o dividendo líquido, já com o imposto deduzido.

Nos últimos 25 anos muita coisa mudou. E, sobretudo nos Estados Unidos, aumentaram o número de empresas de sucesso que não distribuem dividendos. E algumas delas foram as ações que mais se valorizaram nas duas últimas décadas. Continuam a escrever-se milhares de palavras, defendendo que se um investidor optar por uma empresa com um bom "dividend yield" tem um investimento defensivo, esquecendo-se que se a cotação desvalorizar fortemente, aquilo que era defensivo passa a ser uma dor de cabeça. Não há investimentos defensivos no mercado acionista e é importante que todos tenham a noção clara disto.

Se perdermos algum tempo a fazer as contas, verificamos que o impacto dos dividendos no PSI 20 é superior a 3%. Ou seja, teoricamente, o índice deveria descer em torno desse valor em função do ajustamento das cotadas em dia ex-dividendo. Por isso, se o PSI não sofrer variação durante este período significa que, na realidade, ganhou mais de 3%. É algo que, por vezes, negligenciamos nas análises mas que tem um peso relevante.

Voltando ao atual momento da Bolsa nacional, se o principal índice português conseguir aguentar a zona de suporte (antiga resistência) entre os 5250 e os 5300 pontos não será apenas um sinal positivo. Será um grande sinal de força, já que na realidade as ações subiram apesar da desvalorização da sua cotação. A maior parte dos dividendos ainda está por distribuir, pelo que as próximas semanas serão muito interessantes nesta luta do PSI em aguentar suportes mesmo com a pressão da distribuição de dividendos.

Valorize-se mais ou menos os dividendos, o impacto deles no mercado de capitais é inegável. E, nas próximas semanas os touros do PSI lutarão não apenas contra os ursos como também contra os dividendos. Passar incólume a eles seria um enorme sinal de força. Mais um.

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