A escalada inevitável da guerra no Médio Oriente
A estratégia imperialista de Trump está a destruir a ordem global. O ajustamento estratégico que as outras potências farão em resposta é difícil de prever. Mas o que sabemos é que o mundo está muito mais perigoso e blocalizado. E vai ficar ainda mais.
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Donald Trump quer ser o imperador do Mundo - o líder mundial mais forte e temido, que todos adulam e a quem todos pagam para receber as suas boas graças e evitar as suas chantagens. A visão trumpiana do mundo é imperialista e obcecada pelos recursos naturais – território, petróleo e minerais. Quem tem recursos naturais e um historial de inimizade com os EUA, torna-se agora uma presa para o poderio americano. A Venezuela foi o primeiro caso. O Irão o segundo. A Venezuela tem corrido bem até agora, mas a guerra com o Irão tem tudo para correr mal. Aliás, o ataque ao Irão abriu uma caixa de Pandora difícil de conter, que levará a uma escalada da guerra na região.
Nos bombardeamentos massivos ao Irão, Trump foi surpreendido pela resiliência do regime e pelo poder que o controlo do estreito de Ormuz confere aos iranianos. O Irão tem a Marinha e a Força Aérea destruídas, mas, mesmo assim, consegue chantagear o mundo e negociar, país a país, a passagem de navios pelo estreito, o que lhe confere um poder geopolítico enorme. Um poder que Trump não percebeu de início, mas que agora quer para si. Se os EUA controlarem o estreito de Ormuz será Trump a controlar o mercado de petróleo e gás mundiais. E, como estes são recursos dos quais os EUA são exportadores líquidos, a administração Trump pode tentar limitar os preços no seu mercado doméstico, transferindo o custo brutal para o resto do mundo e até chantagear países a suportarem os custos americanos com o ataque ao Irão e a segurança do Estreito. Esta será a estratégia de domínio da administração Trump e a razão da forte concentração de forças militares americanas, cerca de 20.000 Marines e forças especiais, no golfo Pérsico – “boots for the ground”.
Sendo esta a estratégia dos EUA, então o objetivo prioritário será a conquista das sete ilhas iranianas que formam a arquitetura de defesa e controlo do estreito de Ormuz (e não a ilha de Kharg, centro petrolífero do Irão, que poderá ser um alvo posterior). A ilha de Qeshm é a maior e mais bem defendida, e existem mais três ilhas pequenas no estreito - Hengam, Larak e Ormuz. Existem ainda três pequenas ilhas junto à costa dos Emirados - Abu Musa, Grande Tunb e Pequena Tunb, as quais os Emirados reclamam como suas. Existe, pois, um sério risco do alargar da guerra a mais países.
Os países do golfo têm demonstrado uma contenção enorme, ao serem alvo de centenas de ataques de mísseis iranianos sem retaliação. No entanto, a aura de segurança e prosperidade da região foi destruída, e o modelo económico dos países do golfo está severamente ameaçado, tanto na vertente da exportação de recursos como na de atração de turismo e investimento. Um acordo de paz que deixasse o regime iraniano no poder e com controlo do estreito de Ormuz seria negativo para o futuro destes países, pois manteria o espectro da insegurança na região. Na situação atual, a melhor estratégia para os Emirados e a Arábia Saudita é juntarem-se aos EUA no ataque ao Irão, apesar dos riscos de retaliação. Os restantes países do golfo, mais pequenos, muito expostos e sem forças militares relevantes, têm mais vantagem em permanecer neutros nesta fase do conflito.
Assim, abriu-se a caixa de Pandora. As principais forças da região foram colocadas numa situação em que a continuação da guerra é a melhor estratégia – o Irão nunca cederá de livre vontade o controlo do estreito do Ormuz; os EUA precisam rapidamente de uma vitória em Ormuz que justifique a guerra; os países do golfo estão a ser levados para um conflito que tentaram evitar, mas que agora só terminará com a queda do regime iraniano; e Israel quer continuar a destruição das forças paramilitares que o rodeiam e aumentar o seu território em Gaza, na Cisjordânia e Sul do Líbano. As conversas sobre negociações são apenas cortinas de fumo para dissimular ataques em preparação.
Desta forma, com grande probabilidade, os EUA e Israel endurecerão os bombardeamentos ao Irão já na semana de 6 de abril, nas ilhas junto a Ormuz e na costa do golfo Pérsico, como prelúdio para uma ofensiva anfíbia na madrugada de sábado, 11 de abril, altura em que os mercados estão fechados (ou na semana seguinte se as forças não estiverem ainda preparadas). Penso que os EUA irão tentar conquistar as quatro ilhas junto ao estreito e depois torná-las-ão um protetorado americano, em nome da segurança do estreito de Ormuz, aumentando o seu poder sobre a economia mundial e os países do golfo. Nesse ataque, os americanos não estarão sozinhos: os Emirados, país do golfo com as forças militares mais eficazes, provavelmente irão tentar controlar as três pequenas ilhas que reclamam como suas. Esta será uma operação arriscada, com grande perigo de perda de vidas. Mas, se correr bem, reduzirá o poder do regime iraniano e os EUA poderão proclamar uma grande vitória que justifique a guerra, embora seja uma vitória que os deixará enredados em conflitos no Médio Oriente durante anos.
E o que pode correr mal? Poucos duvidam do poderio militar americano para conquistar estas ilhas. É uma operação arriscada e, se as baixas americanas não forem dezenas, mas sim centenas, o povo americano pode considerar o custo da guerra elevado demais. Mesmo controlando as ilhas, a segurança do estreito de Ormuz continuará ameaçada por ataques que venham da costa do Irão, o que obrigará os EUA a nova escalada. Há também o risco desta operação desencadear uma escalada de conflitos regionais, levando a uma reação dos muçulmanos xiitas contra sunitas em vários países do golfo, bem como a continuação do avanço de Israel sobre o Líbano. E há o risco sério da instabilidade no Irão levar a uma guerra civil com consequências imprevisíveis para a região. Tudo isto beneficia grandemente a Rússia, reforçada economicamente pelas consequências deste conflito no golfo Pérsico, e que pode aproveitar a situação para escalar a guerra na Ucrânia.
O imponderável é a reação da China, única potência mundial cujas ações ou influência poderiam evitar um escalar da guerra pelos EUA, mas que tem estado admiravelmente serena desde que o conflito começou. A capa desta semana do The Economist argumenta que a China está a aplicar a máxima de Napoleão de “nunca interromper um inimigo quando está a cometer um erro grave”. Mas como avaliará a China a sua situação estratégica nesta nova Ordem Mundial, em que as potências do Pacífico se estão a rearmar rapidamente e a administração Trump procura controlar o mercado mundial de petróleo e visa um aumento de 40% no seu orçamento de defesa para 2027, numa escalada de custos militares que faz lembrar o apogeu da Guerra Fria? Continuará a China a seguir uma estratégia paciente ou usará esta oportunidade, em que os EUA estão ocupados noutras frentes, para antecipar o seu calendário e fazer um bloqueio sobre Tawain para tentar forçar a integração desta ilha na grande China?
A estratégia imperialista de Trump está a destruir a ordem global. O ajustamento estratégico que as outras potências farão em resposta é difícil de prever. Mas o que sabemos é que o mundo está muito mais perigoso e blocalizado. E vai ficar ainda mais. Resta à Europa perceber que tudo mudou e assumir a coragem, mobilizar os recursos, e desenvolver a capacidade para continuar a apoiar a Ucrânia, que está a lutar valentemente pela liberdade. A Europa tem também de reforçar a sua autonomia estratégica, militar, digital e financeira, enquanto grande bloco mundial, o mais rapidamente possível.
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