A Defesa já não é um tema militar. É um tema de gestão
A próxima vaga de crescimento europeu não será feita apenas de software, serviços e descarbonização. Será também feita de semicondutores, drones, cibersegurança, materiais avançados, mobilidade militar, resiliência logística e proteção de infraestruturas críticas. A Defesa já não é um nicho. É um ecossistema.
Durante anos, muitos líderes empresariais olharam para a Defesa como quem olha para a meteorologia: importante, claro, mas algo que acontece lá fora. O problema é que a geopolítica deixou de estar lá fora. Entrou nas cadeias de abastecimento, nos preços da energia, no acesso a tecnologia crítica, na logística, no investimento e, acima de tudo, na estratégia.
A Europa percebeu isto, talvez mais tarde do que devia, mas percebeu. O White Paper for European Defence — Readiness 2030, apresentado em março de 2025, e o plano ReArm Europe/Readiness 2030 confirmaram que a Defesa deixou de ser apenas uma função soberana do Estado para passar a ser também uma agenda industrial, tecnológica e económica. O plano abre caminho a até 800 mil milhões de euros de despesa adicional em defesa até 2030 e liga essa ambição a capacidades críticas, base industrial e competitividade.
Convém compreender o que isto significa. Não estamos apenas a falar de mais orçamento militar. Estamos a falar de uma nova gramática de competitividade. A próxima vaga de crescimento europeu não será feita apenas de software, serviços e descarbonização. Será também feita de semicondutores, drones, cibersegurança, materiais avançados, mobilidade militar, resiliência logística e proteção de infraestruturas críticas. A Defesa já não é um nicho. É um ecossistema.
E é aqui que o tema deixa de interessar apenas a governos, generais ou fabricantes tradicionais de armamento. Interessa a gestores. Interessa a conselhos de administração. Interessa a investidores. Interessa a quem está a pensar o futuro do têxtil, da metalomecânica, da eletrónica, da logística, dos portos, da energia, da saúde e da indústria transformadora. A economia da Defesa não vai ser construída apenas por novos setores emergentes; vai ser também construída pela capacidade de reconverter, especializar e elevar setores tradicionais para novas cadeias de valor.
O têxtil pode parecer, à primeira vista, longe da Defesa, até deixar de parecer. Materiais técnicos, proteção avançada, integração com sensores, produção para ambientes extremos: tudo isto faz parte de uma nova economia onde a fronteira entre o civil e o militar é cada vez menos rígida. O mesmo vale para a metalomecânica, para os moldes, para os materiais compósitos, para a eletrónica e para tantas empresas que nunca se posicionaram como parte do ecossistema de defesa, mas que podem tornar-se relevantes num quadro de ‘dual-use’, autonomia estratégica e segurança da cadeia de abastecimento.
Seria, no entanto, um erro limitar esta conversa à indústria pesada ou às tecnologias críticas. A guerra atual mostrou, de forma brutal, que a segurança deixou de ser um tema setorial. É também energia, alimentação, saúde e infraestruturas. No caso da energia, a Europa aprendeu da forma mais cara que dependência energética e vulnerabilidade estratégica são quase sinónimos. A transição energética deixou, assim, de ser apenas um tema ambiental. Passou a ser também um tema de segurança.
O mesmo raciocínio vale para a alimentação e para a saúde. Em contextos de conflito, cadeias agroalimentares, fertilizantes, armazenamento, frio industrial, dispositivos médicos, capacidade hospitalar, biossegurança e resposta sanitária deixam de ser temas “de setor” e passam a integrar a arquitetura da resiliência nacional. O mundo está a dizer-nos, com alguma insistência, que a economia real é menos compartimentada do que os nossos organogramas.
A logística merece um capítulo próprio. A Europa está a trabalhar para remover barreiras à mobilidade militar e para acelerar o movimento de equipamento e pessoas através do continente. Isso não é apenas uma conversa de defesa. É uma conversa sobre corredores logísticos, ferrovia, plataformas intermodais, aeroportos e, claro, portos marítimos. Os portos deixam de ser apenas ativos comerciais; tornam-se infraestruturas estratégicas de abastecimento, redundância e projeção. Quem ainda vê logística apenas como eficiência operacional está a perder metade da fotografia.
Há também boas notícias, e convém dizê-lo, porque o pessimismo estratégico nunca foi bom conselheiro. Portugal já mostrou que pode competir em tecnologias críticas. A Tekever é hoje um caso emblemático: ultrapassou a fasquia de unicórnio e consolidou-se como referência europeia em drones e sistemas autónomos. Mais importante do que o símbolo financeiro é o que o caso representa: Portugal pode gerar empresas com relevância global em áreas que combinam software, sensores, inteligência, vigilância e aplicação ‘dual-use’.
Aqui entra a parte menos confortável da conversa. A própria Comissão Europeia reconheceu recentemente que a indústria europeia de defesa continua fragmentada e que PME e start-ups ainda têm dificuldade em pôr o pé na porta do ‘procurement’. A Europa foi boa a financiar I&D em defesa; foi menos boa na velocidade, no apetite ao risco e na capacidade de transformar inovação em escala industrial e acesso ao mercado. Traduzindo para português corrente: o problema já não é ter ideias; é ter execução.
É precisamente aqui que entram as universidades e as business schools. As instituições que continuarem a formar como se tecnologia, geopolítica, energia, indústria, logística e segurança fossem mundos separados estarão a preparar talento para um mundo que já não existe. O desafio não é apenas atualizar programas. É repensar investigação, currículos, parcerias e a própria forma como ensinamos liderança. A próxima geração de líderes terá de ser menos ingénua, mais interdisciplinar e muito mais confortável a decidir em contexto de ambiguidade.
Na Porto Business School, acreditamos que esta transformação não se observa à distância. Prepara-se. É por isso que lançaremos em breve um programa dedicado à nova economia da Defesa. Não porque seja um tema da moda, mas porque se tornou um tema de gestão, de liderança e de competitividade.
Durante demasiado tempo, a Europa falou de competitividade como se bastasse digitalizar, exportar e atrair capital. Tudo isto continua a contar, mas já não chega. O novo ciclo exige capacidade industrial, soberania tecnológica, resiliência logística e visão estratégica. A Defesa já não é apenas um tema militar. É um teste à qualidade da liderança. E, como todos os testes sérios, vai separar quem antecipou de quem apenas reagiu.
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