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José Paulo Esperança 13 de Novembro de 2018 às 19:49

O futuro das escolas de gestão

Embora a aprendizagem presencial seja ainda quase hegemónica, o ensino a distância é fortemente potenciado pela crescente eficiência de sistemas de telecomunicações e pela internet, criando oportunidades consideráveis para as empresas tecnológicas.

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Há cerca de 16.000 escolas de gestão no mundo, o que torna esta atividade uma das mais fragmentadas do mundo. Face ao número crescente de alunos que estudam longe da sua residência habitual, com mais de 5 milhões de alunos a estudar fora do seu país de origem, 20% dos quais na área da gestão, o nível de competitividade é cada vez mais elevado. O ensino da gestão, e grande parte do ensino superior, vai passar de essencialmente local para global no espaço de uma geração.

 

O processo de globalização representa dois desafios fundamentais: o primeiro resulta da competição entre pares. No topo das 16.000 está um pequeno conjunto de escolas, maioritariamente originárias de países de língua inglesa, universalmente reconhecidas e sustentadas por vastos recursos financeiros, incluindo doações de antigos alunos. Num segundo nível, encontramos algumas centenas de escolas, cujo reconhecimento local e nacional ainda não garante uma capacidade equivalente de atrair alunos estrangeiros, apesar de oferecer preços substancialmente inferiores. No entanto, estas escolas têm competido eficazmente com o primeiro grupo, obtendo o reconhecimento de agências de acreditação e posições destacadas nos mais variados "rankings" internacionais. Naturalmente, a sua menor capacidade financeira restringe o potencial de recrutamento de professores e de produção científica. Portugal tem um número significativo de escolas neste grupo, o que nos põe numa posição destacada entre as economias mais desenvolvidas, revelando um elevado nível de eficiência.

 

O segundo desafio resulta do ritmo de mudança imposto pela inovação tecnológica, que vem pôr em causa tanto o conteúdo como o modelo de ensino praticado até aqui. Um estudo recente da McKinsey Global prevê que, até 2030, 800 milhões de postos de trabalho sejam substituídos por robôs. A emergência da inteligência artificial também contribui para uma alteração profunda do tipo de trabalho, dado que as funções de rotina nos serviços (sistemas administrativos, contabilidade, programação) podem ser substancialmente automatizadas. Esta transformação intensifica a competição tanto das atuais escolas como atrai novos concorrentes com recursos ainda mais consideráveis. O recente investimento de mil milhões de dólares do MIT em inteligência artificial é um exemplo da capacidade das grandes escolas em abraçar rapidamente os novos desafios. No entanto, a maior ameaça poderá vir de grandes empresas tecnológicas como a Google ou a Amazon ou de start-ups apostadas em explorar e reinventar o processo de aprendizagem e de certificação da aquisição de competências. Embora a aprendizagem presencial seja ainda quase hegemónica, o ensino a distância é fortemente potenciado pela crescente eficiência de sistemas de telecomunicações e pela internet, criando oportunidades consideráveis para as empresas tecnológicas com maior experiência nesta área.

 

Esta situação coloca as escolas de gestão perante um dilema: como inovar ao nível dos currículos e da metodologia de ensino, com incorporação das oportunidades resultantes do ensino a distância, sem comprometer o processo de criação de conhecimento exigido pelos diferentes avaliadores e que garante a reputação das escolas? A resposta a este dilema passa pela reforço da cooperação em duas frentes fundamentais: entre escolas, permitindo partilhar os custos e riscos da inovação e oferecendo uma experiência internacional e diversificada aos seus estudantes, docentes e colaboradores; e com empresas, para garantir a oferta de um ensino adequado às necessidades atuais e futuras de empresas e instituições e a natureza aplicada e relevância da investigação. No entanto, e por mais eficiente que sejam as escolas, é fundamental reforçar a sua capacidade financeira. Para isso é necessário diversificar as fontes de financiamento - ao financiamento público do ensino e investigação é necessário associar as receitas de propinas, com destaque para a captação de alunos estrangeiros, e o apoio de empresas e indivíduos. Os antigos alunos são fundamentais para o sucesso das suas escolas, num contexto cada vez mais complexo.

 

Diretor da ISCTE Business School

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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