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Dambisa Moyo 08 de Março de 2016 às 20:30

O "curto-circuito" da migração global

A resposta da União Europeia à migração tem sido míope. Uma solução duradoura deve ter em conta o impacto que as políticas dos países desenvolvidos têm no resto do mundo.

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As cerca de 750 mil pessoas que chegaram à Europa por mar em 2015 representam apenas uma pequena parte dos 60 milhões de pessoas deslocadas pela guerra ou perseguições – o maior número de sempre na história. A Europa registou um fluxo massivo de migrantes antes; cerca de 700 mil refugiados entraram na União Europeia depois da separação da Jugoslávia em 1993. Mas isto marca a primeira vez na história que a União Europeia se confronta com a necessidade de acomodar tantas pessoas de fora do continente, incluindo novas chegadas da Líbia, Síria, Iraque e Afeganistão.

 

Além disso, os refugiados não-europeus que desembarcaram em solo europeu, no último ano, não deverão ser os últimos. Mas a resposta da União Europeia à migração em massa torna menos provável que a crise dos refugiados seja resolvida de forma sustentável. A menos que os líderes europeus incorporem uma visão de longo prazo na sua abordagem à migração, a probabilidade de emergências semelhantes à crise dos refugiados deste ano vai continuar a aumentar. E esta abordagem precisa de reconhecer como as políticas europeias domésticas contribuem para o movimento de pessoas do mundo em desenvolvimento.

 

A actual resposta míope e reactiva da União Europeia à migração em massa é conduzida por uma visão de soma zero da economia que ignora os efeitos de longo alcance da política interna. No seu desenho e implementação, é focada quase exclusivamente em medidas imediatas e nos resultados de curto prazo. A possibilidade do impacto futuro é amplamente descontada.

 

Em vez de tentar dissuadir a migração em massa ao encorajar e apoiar o desenvolvimento político e económico fundamental a longo prazo em países que são pobres ou destruídos pela guerra civil, os responsáveis políticos da União Europeia tendem a intervir depois do facto, com promessas de esquemas de ajuda e apoio de emergência. Mas, porque esta abordagem ignora as raízes das causas da migração, não deverá ser eficaz no longo prazo.

 

A incapacidade de seguir uma visão de longo prazo não só prejudica a eficácia da resposta da União Europeia; é altamente contra-produtiva. A ausência de um quadro que responda aos factores que justificam a migração deixa os políticos livres para atender os seus mercados domésticos, com pouca atenção às externalidades políticas e económicas negativas que podem estar a causar estragos fora das suas fronteiras.

 

Os programas protecionistas de vários biliões de dólares – como a Política Agrícola Comum da União Europeia e os incentivos agrícolas nos Estados Unidos – apoiam os produtores domésticos às custas das economias emergentes. Estas práticas comerciais injustas têm um impacto devastador no rendimento e padrões de vida dos agricultores na América do Sul, África e Ásia, que são incapazes de competir com os seus rivais mimados e ricos.

 

Mais recentemente, as políticas monetárias adoptadas pelas economias avançadas, em particular os Estados Unidos, têm contribuído para o dramático enfraquecimento das moedas dos mercados emergentes. A retirada dos estímulos da Reserva Federal em 2013, a esperada redução no espaço do alívio quantitativo e as expectativas de uma subida de juros, todas têm contribuído para uma acentuada saída de capital do mercado em desenvolvimento.

 

De acordo com o Instituto Internacional de Finanças, cerca de 548 mil milhões de dólares saíram dos mercados emergentes em 2015, a maior saída desde 1988. O resultado foi uma queda dramática na quantidade de capital disponível para o investimento mais do que necessário em infra-estrutura e capacidade produtiva. Isto tem resultado num crescimento mais lento no mundo em desenvolvimento, lar de mais de 80% da população mundial.

 

A política intermitente está a consolidar o que o Papa Francisco tem descrito como a "globalização da indiferença". Cada vez mais, as políticas domésticas são avaliadas pelos seus benefícios locais, com pouca consideração tendo em conta as consequências sociais, económicas e políticas no exterior. Os ideais da globalização, que enfatizaram a inter-conexão além-fronteiras, estão a ser substituídos por um quadro de "cada nação por si própria".

 

Uma solução duradoura da crise de migração da Europa deve ter em conta o impacto que as políticas dos países desenvolvidos têm no resto do mundo, incluindo a instabilidade económica e a perturbação política em muitos dos países aos quais os migrantes estão a chegar. Os responsáveis políticos devem considerar cuidadosamente os efeitos de segunda ordem das suas políticas, pois ao andarem para trás nas suas próprias economias de forma desordenada, a migração em massa cresce.

 

O actual ambiente económico e geopolítico mundial é um gatilho para a próxima onda de migrantes. O Fundo Monetário Internacional e a OCDE têm rapidamente revisto em baixa as suas estimativas para o crescimento económico mundial e a Unidade de Inteligência Económica estima que cerca de metade das economias mundiais estão num "elevado" ou muito elevado" risco de contestação política e social. Este "mix" é um desastre à espera de acontecer, um desastre que os responsáveis políticos mundiais devem agir para evitar, em vez de esperar para responder apenas quando a próxima crise surgir.

 

Dambisa Moyo, economista e escritora, faz parte do Conselho de Administração de um conjunto de instituições mundiais.

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2015.
www.project-syndicate.org

Tradução: Raquel Godinho

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