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António Moita - Jurista
08 de Novembro de 2020 às 22:52

“Sleepy” Marcelo

Os tempos que temos pela frente requerem uma liderança corajosa, determinada e independente. Tudo o que ele [Marcelo] já demonstrou que consegue protagonizar. Por isso é o momento de dizer a bem da Nação. Acorda, Marcelo!

As eleições americanas têm marcado o dia-a-dia informativo em todo o mundo. O recurso à ofensa pessoal entre candidatos atingiu níveis inimagináveis num país em que a cultura democrática sempre foi uma referência para o Ocidente. A caricatura depreciativa em que se procuravam minimizar as qualidades do candidato Joe Biden foi uma constante das intervenções de Donald Trump. Um exemplo, talvez dos mais marcantes, foi a insistência em tratar o candidato democrata como alguém sem condições para governar, passivo, confuso e sem ideias. O já célebre “sleepy Joe”, ou na divertida tradução brasileira “Joe soneca”, ficará certamente para a história.

Em Portugal, a cerca de dois meses da campanha presidencial, estamos a assistir a uma versão menos impressiva desta caricatura na pessoa do atual Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Este último ano de mandato tem sido muito difícil para quem nos habituou a uma presença constante na comunicação social e na condução dos principais assuntos do Estado. Nos primeiros anos de mandato, Marcelo marcou a agenda política e definiu o rumo dos acontecimentos. Quem não se lembra da sua atitude, plena de convicção e de força, na resposta à tragédia dos incêndios ou, noutro plano, na criação de condições para que o mandato do governo socialista chegasse ao fim sem grandes percalços.

A pandemia marcou uma transformação profunda na atitude de Marcelo. A necessidade de consensualizar as medidas de resposta à crise de saúde pública e de salvação da economia deteriorou a imagem que o tinha levado a garantir, com enorme antecipação, uma reeleição certa em que alcançaria números históricos, num passeio tranquilo sem grande oposição. Bastaria deixar correr o tempo e não se envolver em escaramuças provocadas por candidatos exibicionistas sedentos de popularidade. Mas estes meses de desnorte estão a provocar um desgaste que, no início de 2020, não era esperado nem previsto por ninguém.

Marcelo, um Presidente que estava sempre na primeira linha do combate e que controlava todos os acontecimentos, conseguiu deixar-se ultrapassar pelas circunstâncias e permitiu o surgimento de novos atores que ocupam cada vez mais o espaço mediático. Foram três anos a tentar demonstrar que um Presidente a quem a Constituição não atribui poderes relevantes pode exercer o seu cargo com autoridade e que nenhuma decisão importante poderia ser tomada sem o seu consentimento. Eis que nos últimos meses se deixou condicionar, tornando-se alguém que deixou de liderar e que, consequentemente, deixou de ser o máximo denominador comum digno da confiança generalizada do povo que jurou servir e defender.

Votei Marcelo Rebelo de Sousa e, caso se confirme a sua recandidatura, tenciono tornar a fazê-lo. Mas com menos convicção. Como nenhum outro, o Presidente dos afetos conseguiu ser um referencial do equilíbrio, voz de quem a não tinha, catalisador da energia e das vontades do que a sociedade portuguesa tinha de melhor. Fez o que parecia impossível. Começar a reconciliar os cidadãos com a atividade política sem necessitar da intermediação dos partidos. Fiel depositário da confiança de forças sociais, culturais, empresariais, sindicais e associativas, conduzindo-as para a recuperação de um país até aí deprimido, sem estratégia e descrente de si próprio. Marcelo parece ser hoje um homem cansado, envelhecido, perdido, sem sentido estratégico, sem ideias que convençam o povo que vale a pena lutar por um Portugal mais justo e melhor. Deixou-se adormecer. Limitou-se a si próprio, escondeu-se perante as maiores dificuldades e abriu a porta a quase tudo o que não queria. Perdeu espaço e naturalmente perdeu poder. Mas os tempos que temos pela frente requerem uma liderança corajosa, determinada e independente. Tudo o que ele já demonstrou que consegue protagonizar. Por isso é o momento de dizer a bem da Nação. Acorda, Marcelo!

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