Futebolista, português, emigrante...
Entre ganhar dinheiro e defender o jogador português, essa espécie em vias de extinção por estes relvados, está a ver-se o que motiva dirigentes, chefes de departamentos de futebol e empresários. As comissões são o sol que ilumina o futebol indígena.
Entre ganhar dinheiro e defender o jogador português, essa espécie em vias de extinção por estes relvados, está a ver-se o que motiva dirigentes, chefes de departamentos de futebol e empresários. As comissões são o sol que ilumina o futebol indígena.
O sr. de la Rouchefoucauld, que conhecia bastante bem os seres humanos, escreveu um dia que: "A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude". Sabia do que falava: a hipocrisia é fingir uma qualidade que não se tem. E fazer de conta que se tem uma real vontade de ver o mundo sem desigualdades. Finge-se, para que tudo continue na mesma. O hipócrita é aquele que não possui a qualidade que diz ter. Este descer ao relvado da hipocrisia tem a ver com o que vimos no jogo entre o Vitória de Guimarães e o Benfica para a Taça da Liga.
Segundo parece, para promover o jogador português (essa espécie em vias de extinção nos campo de futebol de Portugal), a Liga de Clubes obriga os clubes que participam na Taça da Liga a actuar com dois jogadores portugueses durante 45 minutos. O Benfica, hoje em dia conhecido por conseguir muitas vezes alinhar sem um único futebolista indígena, conseguiu o feito de, durante 45 minutos, colocar dois portugueses em campo: o sr. Eduardo e o sr. Nelson Oliveira. Cumprido o desiderato, o sr. Nelson Oliveira, ao fim de 45 minutos, foi recambiado para um retemperador banho. O Benfica sentiu que cumpriu a sua obrigação. E só não retirou o sr. Eduardo porque ele, pelos vistos, precisa de jogar uns minutos para que o sr. Paulo Bento não se esqueça que existe.
Mas a atitude do Benfica é apenas a expressão máxima do que é um hábito nos principais clubes e que, talvez, só a crise económica e financeira permitirá estancar. O sr. Nelson Oliveira, por exemplo, se quiser ser no futuro um avançado que conte para a selecção nacional terá de emigrar. No Benfica nunca será titular ou poderá almejar lutar por isso. Como o sr. David Simão. Como o sr. Mika. Como tantos outros. É por isso mesmo que, no outro lado da ficção de dirigentes se mostrarem muito preocupados com os jogadores portugueses, surgem agora responsáveis políticos a dizer que só poderiam ser contratados internacionais de outros países. Outro dislate: os grandes negócios dos clubes são outros.
Toda a hipocrisia que rodeia esta questão tem a ver com uma única coisa: jogadores da Argentina, do Brasil ou de outros destinos que vêm jogar para Portugal vêm aqui fazer uma rodagem antes de se transferirem para quem paga bom dinheiro por craques na Europa. Por isso estes jogadores são tão rentáveis: as comissões, distribuídas por muitos interessados, são generosas. Entre ganhar dinheiro e defender o jogador português, essa espécie em vias de extinção por aqui, está a ver-se o que motiva dirigentes, chefes de departamentos de futebol e empresários. Como na Liga mandam os clubes e na FPF os partidos políticos, ao futebolista nacional só resta uma solução: emigrar. Como o resto dos portugueses.
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