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Edson Athayde - Publicitário e Storyteller 17 de Julho de 2018 às 21:10

O fim do Mundial não é o fim do mundo

Como sempre, a FIFA declarou que este Mundial foi o melhor de todos os tempos. Disse o mesmo ao fechar o bailarico brasileiro em 2014. No próximo, o discurso não será diferente.

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No fim, tudo faz sentido. E, se não faz sentido, é porque não chegou ao fim. O meu Tio Olavo não diria melhor.

 

Melhor. Como sempre, a FIFA declarou que este Mundial foi o melhor de todos os tempos. Disse o mesmo ao fechar o bailarico brasileiro em 2014. No próximo, o discurso não será diferente. Tais declarações têm pouco ou nada a ver com a verdade. São apenas palavras, nada mais do que palavras, para alimentar a fome de conteúdos da comunicação social.

 

Social. O que será que a sociedade russa achou da gastança? Não sou dos que gostam de misturar futebol com política (embora tenham lá a suas semelhanças; o escritor Nelson Rodrigues, por exemplo, observou: "Muitas vezes é a falta de caráter que decide um jogo. Não se faz política, literatura e futebol com bons sentimentos"). Mas, diferente do Brasil, onde os protestos foram tão ruidosos quanto inúteis, não creio que os vassalos de Putin tivessem muito espaço para alardear as suas insatisfações. Este foi o Mundial do come e cala. O próximo, no Qatar, não será diferente.

 

Diferente. Algumas coisas foram distintas na narrativa. Tivemos um Mundial mais pudico. Os closes nos seios e nas nádegas das senhoras nas arquibancadas foram extintos. Repórteres mulheres que se sentiram assediadas por adeptos bêbados durante as transmissões revidaram em directo. Foi como se o #metoo chegasse à bola.

 

À bola. Daquilo que pôde ser visto dentro do campo, a tudo faltou uma certa dimensão. Não tivemos um grande herói como Zidane em 1998 ou Ronaldo, o fenómeno, em 2002. Tampouco ninguém assumiu o posto de grande vilão (vale lembrar Suárez, em 2014, o devorador de orelhas ou o drogado Maradona de 1994, com os olhos esbugalhados, a ameaçar comer uma câmara de TV, ou ainda a bola com vontade própria, a nefasta Jabulani, criada pela Adidas para atrapalhar os golos na África do Sul). O Mundial da Rússia vai entrar para história como um evento morno, nada de inesquecível.

 

Inesquecível. Como esquecer o meme do Mundial? O quanto rimos com Neymar e as suas quedas espectaculares. Por mais que não concorde com boa parte da crítica (não foi Neymar a inventar a simulação nem o único a utilizar tal recurso nesse e em outros campeonatos), todos acompanhámos a gargalhada planetária a gozar o menino Ney. Futebol também é isso: humor grosseiro, porém engraçado. No futebol, assim como o choro, o riso é livre.

 

Livre. Ou livres. Assim estamos depois de um mês de emoções à flor da pele. Resta-nos esperar pelo regresso das actividades de ludopédio daqui a algumas semanas. Sem a bola não ficamos nem melhores, nem piores, apenas ficamos incompletos. Afinal, a bola é o nosso circo romano onde somos todos cristãos e no final ganha sempre o leão, digo, o alemão.  

 

Publicitário e Storyteller

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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